terça-feira, 9 de novembro de 2021


09 DE NOVEMBRO DE 2021
CARLOS GERBASE

Os cadernos vazios e o caderno dos sonhos

Em abril de 2013, poucos dias após a morte do professor de cinema Aníbal Damasceno Ferreira, o Luís Augusto Fischer me convocou para uma missão urgente: resgatar o acervo do nosso amigo em comum, pois a casa em que morava seria vendida em breve e não havia destino seguro para sua biblioteca. Aníbal era um intelectual importante e imaginávamos que era nosso dever preservar sua memória bibliográfica e, quem sabe, descobrir algum material autoral inédito. Entramos juntos no sobrado da travessa Luís Rosseti, na Azenha, e, chegando ao segundo andar, nos deparamos com várias estantes abarrotadas de livros, arquivos com documentos, textos datilografados e muitos recortes de jornais e revistas.

Tudo isso, apesar da desorganização, era o que esperávamos encontrar. Havia um item, contudo, que nos desconsertou: espalhados nas prateleiras ou dentro de pastas de plástico, encontramos dezenas de cadernos escolares, muitos deles com capas estampando temas infantis. Alguns tinham uma ou duas frases na primeira folha, com a caligrafia do Aníbal. Muitos estavam totalmente vazios. Por que o Aníbal nunca passava da primeira página? Desconfio que esse mistério permanecerá para sempre. Lembrei dessa história por conta do lançamento de O Caderno dos Sonhos de Hugo Drummon, um pequeno romance que escrevi durante a pandemia. Editado pela Diadorim, terá sessão de autógrafos no próximo sábado, dia 13, às 17h30min, na Feira do Livro.

Escrever, pintar, fazer música, dançar e encenar peças online foram atividades essenciais nestes tempos de isolamento para muita gente. É importante que essas criações - às vezes bem solitárias - encontrem seus leitores e espectadores. Eu costumava entregar meus textos literários e meus roteiros de cinema para o Aníbal, e ele sempre me dava algum retorno valioso. Como o Aníbal gostava da Feira, quem sabe, se ainda estivesse entre nós, poderíamos conversar sobre esse tal Hugo Drummond, que registrava seus sonhos num caderno de capa azul e depois tentava transformá-los em filmes. Talvez ele achasse esse enredo meio imbecil, mas a palavra "imbecil", na boca do Aníbal, muitas vezes era carinhosa e servia como porta de entrada para uma opinião honesta e construtiva (se possível) sobre o texto em questão. Saudade do Aníbal! Guardo alguns dos seus cadernos vazios como uma advertência: é bem difícil ultrapassar a primeira página. E também como um recado: é preciso tentar.

CARLOS GERBASE

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