terça-feira, 23 de junho de 2026

Mauro Bellini avalia desafio de manter uma indústria no RS: 'é mais difícil'

Presidente do Conselho de Administração da Marcopolo, Mauro Bellini analisa cenário para a indústria no RS

Presidente do Conselho de Administração da Marcopolo, Mauro Bellini analisa cenário para a indústria no RS

TÂNIA MEINERZ/JC

Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Os desafios históricos da indústria gaúcha, agravados pelos altos custos logísticos e pela distância dos principais mercados consumidores do País, seguem exigindo das empresas do Rio Grande do Sul um esforço adicional para manter a competitividade.
Para Mauro Bellini, presidente do Conselho de Administração da Marcopolo e do Banco Moneo, fatores como o custo Brasil, a escassez de mão de obra e as limitações da infraestrutura de transporte tornam o ambiente de negócios ainda mais complexo para quem produz no Estado.
Bellini avaliou o cenário em entrevista ao Jornal do Comércio, antes de palestrar em evento na Pucrs em meados de julho. O industrial destaca que a cultura de trabalho da população gaúcha tem sido decisiva para superar essas dificuldades e impulsionar empresas locais ao cenário global.
O dirigente também avalia o momento positivo da Marcopolo, impulsionado pelo avanço do transporte coletivo sustentável, e comenta as perspectivas de expansão internacional da companhia, incluindo oportunidades ligadas ao acordo entre Mercosul e União Europeia.
Jornal do Comércio – Como o senhor avalia o momento vivido pela Marcopolo?
Mauro Bellini – Estamos vivendo um momento bastante positivo. Acreditamos que o futuro passa pelo fortalecimento do transporte coletivo. Não há espaço para um crescimento indefinido do número de carros nas cidades. Também estamos muito alinhados às questões de sustentabilidade. Hoje contamos com ônibus elétricos, que contribuem significativamente para a redução das emissões. Vemos essa demanda crescer cada vez mais. Na Europa, por exemplo, praticamente não há cidade que não esteja investindo em ônibus elétricos. Estamos acompanhando esse movimento e aproveitando as oportunidades que ele oferece.
JC – O acordo entre Mercosul e União Europeia, visto por muitos como o grande anúncio para a indústria brasileira em 2026, impacta de alguma forma os negócios da Marcopolo?
Bellini – Hoje não há um impacto direto, porque não realizamos vendas diretas para a Europa. No entanto, já estamos avançando nesse mercado. Participamos da última feira de Bruxelas, em 2025, e firmamos um acordo com a Volvo na Europa, por meio do qual passaremos a fornecer produtos fabricados aqui. No médio prazo, um acordo comercial dessa natureza pode contribuir para ampliar as exportações e facilitar o fornecimento de produtos produzidos no Brasil para o mercado europeu.
JC – Já existe uma previsão para o início efetivo das operações com a Volvo?
Bellini – O projeto já está em andamento, mas ainda estamos na fase de produção de protótipos. Neste momento, não há uma previsão definida para o início das operações em escala comercial.
JC – Quais são os principais desafios para uma indústria gaúcha atualmente?
Bellini – Além dos desafios enfrentados por empresas de todo o Brasil, como a escassez de mão de obra e o chamado custo Brasil, que é muito elevado, o Rio Grande do Sul tem uma dificuldade adicional relacionada à logística. Estamos na extremidade do País: a maior parte das matérias-primas vem da região central do Brasil para cá, enquanto muitos dos nossos clientes estão justamente naquela região. Portanto, além dos custos nacionais, enfrentamos um importante desafio logístico, que é um dos maiores obstáculos para as empresas gaúchas.
JC – É mais difícil manter uma indústria no Rio Grande do Sul?
Bellini – Sem dúvida. Aqui precisamos nos esforçar mais. Como dizem os americanos, we try harder. Temos de trabalhar mais para superar as dificuldades. Por outro lado, contamos com uma população extremamente trabalhadora, o que ajuda muitas empresas gaúchas a alcançarem sucesso em nível mundial.
JC – E em relação à Serra Gaúcha? Quais desafios e oportunidades o senhor enxerga para o desenvolvimento industrial da região?
Bellini – A Serra está inserida nesse contexto do Rio Grande do Sul e também sofre com os custos logísticos. Estamos distantes dos portos e buscamos desenvolver um aeroporto que amplie a conectividade da região, reduzindo a dependência exclusiva do aeroporto de Porto Alegre. Além disso, não contamos com uma ferrovia adequada, e implementar ou operar um sistema ferroviário é muito caro. Isso faz com que as pessoas da Serra precisem trabalhar ainda mais para superar essas limitações. Costumo lembrar que, quando os italianos chegaram ao Rio Grande do Sul, as áreas mais planas e favoráveis já estavam ocupadas pelos alemães. Os italianos tiveram de subir a Serra, enfrentar um território mais difícil e trabalhar duro para prosperar. Acredito que essa história ajudou a formar uma cultura de trabalho muito forte na região.

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