quarta-feira, 4 de novembro de 2026


04 de Novembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A eleição presidencial nos EUA começa agora

Muita coisa está em jogo nas midterms, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos: além da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, o resultado vai colocar à prova o sistema de freios e contrapesos da democracia americana. Sobretudo, é um termômetro fundamental para a disputa presidencial, que ocorrerá em 2028. Na prática, a corrida para a sucessão de Donald Trump começará tão logo estejam consolidados os resultados para o Capitólio.

Como o voto para a Câmara é distrital, cada deputado eleito representa um dos 435 distritos eleitorais do país. São, portanto, 435 cadeiras na Câmara dos Representantes, todas em disputa nesta eleição. Esse voto permite compreender, no detalhe, como estão as preferências - e sobretudo as rejeições do eleitorado.

Os Estados decisivos na eleição presidencial não são necessariamente os mesmos das midterms.

Na eleição para presidente, o foco recai sobre Estados competitivos no Colégio Eleitoral. Nas eleições legislativas, determinados distritos da Câmara podem ser decisivos para definir qual partido terá a maioria, mesmo dentro de Estados tradicionalmente democratas ou republicanos. _

A situação em cinco campos de batalha

Ohio e os data centers

Uma das votações mais interessantes é a de Ohio. Chama a atenção a queda de braço em torno dos data centers, fundamentais para a nova economia, mas que demandam muita energia. No Estado que, no passado, foi conhecido pela indústria pesada (daí sua localização no chamado Cinturão da Ferrugem), a população tem reclamado do preço da energia elétrica. A instalação de data centers cresceu muito graças a incentivos fiscais públicos. Ato contínuo, a conta aumentou.

Disputam a vaga o hoje senador Jon Husted, pelo Partido Republicano, defensor da instalação dos data centers, e o ex-senador Sherrod Brown, do Partido Democrata.

Texas e o fenômeno Talarico

É um tradicional reduto republicano, mas, nos últimos anos, tem se tornado um Estado-pêndulo.

Lá desponta uma das estrelas democratas: James Talarico, pastor presbiteriano visto como possível candidato em 2028. Ele enfrenta o republicano Ken Paxton. O Texas não elege democratas ao Senado desde 1988.

Kansas e a truculência do ICE Kansas não elege um senador democrata desde 1932. Adam Hamilton, também pastor, enfrenta o republicano Roger Marshall. A insatisfação com a economia, a alta nos preços dos combustíveis e as operações truculentas do ICE, a polícia de imigração, pesam contra os republicanos.

Alasca pode virar

Outro Estado tradicionalmente republicano, o Alasca pode virar para o lado democrata. A última vez que os democratas conquistaram uma cadeira no Senado lá foi em 2008. A ex-congressista democrata Mary Peltola enfrenta o senador Dan Sullivan.

Maine e a disputa toss-up

É uma das disputas mais importantes. Susan Collins (republicana) enfrenta Troy Jackson (democrata). Susan busca seu sexto mandato, mas representa um Estado que votou nos democratas nas últimas eleições presidenciais. A disputa é classificada como toss-up, ou seja, sem vantagem clara para nenhum partido.

Os nomes para 2028

As midterms já começam a desenhar quem irá enfrentar a disputa presidencial em 2028.

Democratas

James Talarico - Jovem, religioso e carismático, o ex-professor de escola pública é candidato ao Senado pelo Texas. Notabilizou-se pela defesa do financiamento da educação pública, aumento dos salários dos professores e ampliação do acesso à saúde.

Jon Ossoff - Atua como senador dos EUA pela Geórgia. Ganhou destaque por presidir comissões investigativas no Senado voltadas para o combate à corrupção e à violação de direitos em prisões federais e sistemas de assistência social.

Alexandria Ocasio-Cortez - Deputada federal representando o 14º Distrito de Nova York, tornou-se, em 2018, a mulher mais jovem da história a ser eleita para o Congresso, aos 29 anos. É uma das principais líderes da ala progressista e da esquerda do Partido Democrata.

Pete Buttigieg - Veterano das forças armadas, foi secretário de Transporte do governo de Joe Biden. Antes disso, foi eleito prefeito de sua cidade natal, South Bend (Indiana), com apenas 29 anos. É um democrata de perfil pragmático.

Mark Kelly - Ex-astronauta e ex-piloto militar, atua como senador pelo Arizona. Apresenta-se como um democrata moderado e pragmático, com foco em soberania industrial, segurança nacional, pautas trabalhistas e gestão de recursos hídricos e ambientais.

Republicanos

Ken Paxton - Procurador-geral do Texas, é uma das figuras mais alinhadas à ala conservadora do Partido Republicano. Escândalo: em 2023, a Câmara dos Representantes aprovou artigos de impeachment contra ele por acusações de corrupção, suborno e abuso de poder.

Marco Rubio - Secretário de Estado dos EUA, nasceu em Miami, Flórida, e é filho de imigrantes cubanos. É um dos falcões em relações internacionais. Adota posições assertivas em relação à China, ao Irã, a Cuba e aos regimes autoritários da América Latina. Na pesquisa AtlasIntel de domingo, aparece em 1º lugar na preferência dos republicanos.

JD Vance - Atual vice-presidente dos EUA, serviu como senador por Ohio. É uma das principais vozes da ala populista de direita e do conservadorismo nacionalista do Partido Republicano.

Ron DeSantis - Governador da Flórida desde 2019, em mandato que vai até 2027, notabilizou-se por políticas de forte perfil conservador: oposição a restrições e lockdowns durante a pandemia.

Tucker Carlson - Apresentador e comentarista político, é uma das figuras mais influentes da direita e do movimento Make America Great Again (MAGA). Suas opiniões caracterizam-se por uma postura isolacionista em política externa e por uma rígida oposição à imigração.

Quais investigações podem ser abertas contra Trump

Se o Partido Democrata vencer em pelo menos uma das Casas, poderá investigar Trump pelos seguintes casos:

Família e finanças de Trump

Entre os pontos que os democratas prometem analisar, estão os vínculos entre o governo e as entidades corporativas - em particular, empresas de criptomoedas do conglomerado Trump - e os negócios internacionais geridos por Jared Kushner, seu genro. Outro ponto que pode ser analisado é a doação feita pelo Catar de uma aeronave de US$ 400 milhões para o presidente. Também a relação entre as empresas de Elon Musk e o governo americano.

Relações militares

Desde o início do seu segundo mandato, Trump afirmou que não iniciaria guerras. Mas realizou diversas investidas, como no Irã. Caso saiam vitoriosos, os democratas devem iniciar uma investigação sobre a atuação do secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, no conflito. As ações no Caribe e na Venezuela também estarão no alvo.

Imigração e ICE

As medidas de repressão a imigrantes se ampliaram no segundo mandato com a atuação do ICE, a polícia de imigração americana. Democratas pretendem iniciar investigações para avaliar a conduta dos agentes durante as abordagens.

Caso Epstein

No ano passado, o Departamento de Justiça foi obrigado a divulgar milhões de arquivos relacionados ao financista condenado por crimes sexuais. Os democratas poderiam avançar nas apurações sobre eventuais conexões entre Trump e Epstein.

Impeachment

Trump pode sofrer impeachment? É improvável. Os democratas até devem iniciar um novo processo. O pedido poderia passar na Câmara dos Representantes, mas dificilmente avançaria no Senado, já que, para a cassação, são necessários dois terços dos cem senadores (67 parlamentares).

INFORME ESPECIAL


03 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Gostar de qualquer jeito é gostar de nenhum jeito

A falta de atitude esvazia a opinião masculina. O receio de criticar é a pior crítica. O receio de decepcionar é a maior decepção.

Sua esposa volta do salão, apresenta o corte. Ela resistiu a tarde inteira na cadeira. São quatro horas de molho, não uma hora como no barbeiro. É um sacrifício, não uma imersão. Compreenda: ninguém morre de vontade de passar por isso. Ela ainda gastou os tubos e os bobes no cartão de crédito.

Levando em consideração as suas limitações, aparece na sua frente facilitando o game. Chega sem suspense, balançando a cabeça para mostrar escandalosamente os cachos. Não questiona o que há de diferente. Você não amargará o constrangimento de apontar as sobrancelhas, que são as mesmas desde sempre. Ela é educada, generosa.

Apenas pergunta: - Que tal? O que achou? Você só deveria dizer: "lindo", "que bonito", "maravilhoso", "parabéns", "ficou muito melhor", "é uma nova pessoa", "vai causar inveja"?

Mas inventa de falar: - Gosto de você de qualquer jeito.  Você inclusive supõe ter colocado Vinicius de Moraes no chinelo. Acredita ter dado uma resposta impecável. Espera reconhecimento pela sua sensibilidade (de nabo), um abraço pela sua profundidade (de piscina infantil).

Porém, é um lance para o VAR. É cartão amarelo que vira expulsão com a reprise da câmera. O comentário corresponde a um "tanto faz", não exalta o investimento, não destaca a mudança.

E também expressa uma omissão: ela pode se arrumar de qualquer jeito. Pode vir de qualquer jeito que você sequer se detém. Trata-se de um juízo morto, nem neutro é. Não é sinal de liberdade e de respeito, mas ausência de reciprocidade.

Você mal levantou os olhos, não examinou, não se deslumbrou, não se desprendeu da tela do celular. Há um conjunto de gestos amparando o desdém. Seria até preferível que odiasse e demonstrasse algum sentimento, provasse que reparou.

Assim, é o ó do borogodó, o fim do caminho. Logo mais, você pedirá que ela escolha a roupa no seu lugar, o cardápio no seu lugar, as viagens no seu lugar, e fugirá de existir. Não sei se é medo da própria mulher, o que sei é que é covardia de assumir a própria vida.

Declare seu voto, manifeste-se, não dá para ser isentão no amor. O gostar genérico dispensa os detalhes. Ela termina sem entender se valeu a pena a ousadia. Não finja que é um dia igual ao outro.

Prepare-se para sair. Ela se embelezou, ela se cuidou, não irá querer permanecer em casa assistindo a filmes. Desejará quebrar a rotina em pedacinhos.

Mexa-se com as palavras e com o corpo. Sua companhia pretende tirar selfies, desfilar, desfrutar do efeito provisório dos cabelos alinhados. Montará um álbum, uma série para lotar as redes sociais nos próximos meses. Pense num local chique para jantar, para dançar.

Aproveite o encanto enquanto o feitiço não acabar. Ela não está para brincadeira. Depois de dormir, será um parto para repetir o penteado. Só regressando ao salão. E tendo que suportar o seu menear de ombros. 

CARPINEJAR

03 de Novembro de 2026
NÍLSON SOUZA

Atendimento humano

Já está valendo o decreto que obriga empresas robotizadas a oferecer atendimento humano para os consumidores. Duvido que o nosso suplício vá acabar da noite para o dia, pois um só agente de IA substitui dezenas de atendentes de carne e osso.

Porém, pelo que li, a multa pode ser pesada para casos de descumprimento e reincidência. Ainda assim, só me sentirei suficientemente desagravado se as agências reguladoras e os Procons, encarregados de fiscalizar e aplicar sanções, escalarem um chatbot para atender empresários inconformados. Tipo:

- Se você deseja reclamar, digite 1. - Se você quer rastrear a sua reclamação, digite 2.

- Para negociar o valor da multa, digite 3. - Para falar com nossos fiscais, espere sentado.

Apesar do sarcasmo, não sou refratário à tecnologia. Até gosto de usar facilidades proporcionadas pela inteligência artificial. Outro dia, num passeio a Viamão para visitar parentes, num momento de silêncio dos acompanhantes, aproveitei para questionar minha assistente virtual:

- Siri, tem jogo hoje pela Liga dos Campeões da Europa?

Ela respondeu de má vontade. - Não posso fazer buscas na web enquanto você está dirigindo.

Ops! Reconheço que ela tem lá as suas razões, foi programada para indicar rotas de trânsito e orientar o motorista - não para distraí-lo. Então fui direto ao ponto:

- Rota para o Beco do Remi. Nada feito:

- Não entendi o que você falou. Insisti, em tom mais elevado: - Beco do Remi, por favor!

Acho que ela se intimidou. E prontamente tratou de fazer alguma coisa para me agradar.

- Ligando para Beco! (esse é o apelido de meu sobrinho que mora em Imbituba).

- Não! Não! - interrompi rapidamente e desliguei a chamada já em andamento.

Não demorou dois minutos e Beco me ligou de volta.

- Fala, tio! Pedi desculpas e expliquei. - Foi essa trapalhona da Siri que ligou sem querer. Pelo jeito ela não sabe diferenciar sílaba aberta de fechada.

Para ampliar o surrealismo da situação, a menina de seis que acompanhava tudo do banco de trás perguntou admirada:

- Como é mesmo o nome da tua Alexa? Risada geral. Aí resolvi brincar também. - O nome é Sirigaita, mas pode chamar de Siri.

Espero que a própria não tenha ouvido, pois na próxima consulta pode me mandar para algum lugar bem mais distante do que o Beco do Remi, que fica no aprazível distrito de Águas Claras. _

NÍLSON SOUZA

03 de Novembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O eleitor, nos EUA ou no Brasil, vota pensando no bolso

O eleitor, nos Estados Unidos ou no Brasil, pode pensar na democracia, nas disputas entre direita e esquerda, mas, ao final, acaba votando com o bolso. Daí por que o custo de vida é o principal tema das eleições de meio de mandato, as midterms, que ocorrem hoje nos EUA.

Donald Trump pode dizer que os EUA "estão mais ricos agora" e que "não há inflação" (o que, aliás, não é verdade). O que realmente importa é a economia vivida. Pesquisas recentes mostram que mais de 60% dos americanos condenam as políticas econômicas e reclamam do elevado custo de vida. A guerra contra o Irã, deflagrada pela Casa Branca, e o fechamento do Estreito de Ormuz, que ajudou a turbinar a inflação, atingiram em cheio uma paixão - e necessidade - americana, andar de carro. O americano olha para o preço do supermercado, mas principalmente para o preço da gasolina. O eleitor quer saber se o dinheiro está rendendo. E, na prática, não está. _

O que dizem as últimas pesquisas

Americanos irão às urnas para as midterms. Atualmente, o Partido Republicano, do presidente Donald Trump, detém a maioria nas duas Casas, mas pesquisas indicam uma possível virada a favor dos democratas, o que alteraria a governabilidade do governo nos próximos dois anos.

Uma pesquisa genérica de preferência dos eleitores para o Congresso feita pela AtlasIntel, divulgada no domingo, aponta 55,5% das intenções de voto para os democratas e 41,4% para os republicanos. No levantamento da NBC News, os democratas aparecem com 52%, contra 45% dos republicanos. Na pesquisa I&I/TIPP, divulgada ontem, 52% optaram pelos democratas e 42% pelos republicanos.

Já o levantamento da Reuters/Ipsos, divulgado em 26 de outubro, indica 53% para os democratas, em comparação com 44% para os republicanos.

Senado

Atualmente, no Senado, os republicanos contam com 53 cadeiras, contra 45 dos democratas mais dois independentes que votam com a oposição. Os democratas precisam conquistar quatro cadeiras para obter a maioria de 51 assentos (contando com os dois independentes). Para alcançar essa meta, o partido precisa vencer em Estados onde Trump saiu vitorioso em 2024.

Câmara dos Representantes

Na Câmara, os republicanos contam atualmente com 218 cadeiras (além de um independente que vota com eles) e os democratas com 214. São necessários 218 votos para a maioria. Os democratas precisam de um ganho líquido de três cadeiras para retomar o controle da Casa. _

Olhos brasileiros na disputa

A advogada especialista em inteligência artificial e coordenadora de especialização em Direito Eleitoral da FMP, Francieli Campos, é uma das observadoras internacionais das midterms - as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Ela está na Flórida e ontem visitou um "cartório" eleitoral do Condado de Broward, onde observou todo o processo, desde a impressão das cédulas até a contagem dos votos por correio (que já foi encerrada) e o treinamento dos mesários. Ela também participou de reuniões no Condado de Miami-Dade.

Lula 4 e as relações exteriores

A coluna perguntou a três professores qual é o principal desafio do presidente na política externa no quarto mandato.

Redes sociais

"Lula deixa claro que vai cuidar de regular redes sociais. E onde estão as big techs? Nos Estados Unidos, muito próximas do governo Trump. Temos um dos grandes enroscos da política externa nos próximos anos: o Brasil tentando medir forças com empresas que são muito poderosas economicamente, tecnologicamente e politicamente."

Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional da UFMG

Terras raras

"O governo Lula já fez a regulamentação neste ano, e temos a implementação do Conselho Nacional sobre minerais críticos, mas teremos uma pressão muito grande, sobretudo dos Estados Unidos e da China, para a exploração desses minerais. O Brasil precisará ter jogo de cintura. Isso envolve, talvez, o redesenho de parcerias e participação em fóruns e organizações internacionais."

Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais na ESPM São Paulo

Tarifaço

"Enfrentar Donald Trump e a questão das tarifas. Por mais que tenhamos midterms agora, nos Estados Unidos, ainda temos um certo tempo de governo Trump e dessa atuação frente, por exemplo, ao "Escudo das Américas" (projeto da Casa Branca de combate ao que chama de narcoterrorismo na América Latina). De que maneira o Brasil vai reagir a isso, haja vista essa pressão por parte dos Estados Unidos que também pode se desdobrar por meio de sanções econômicas? Esse vai ser também um grande desafio mais imediato."

Tatiana Squeff, professora de Direito Internacional da UFRGS

INFORME ESPECIAL

02 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Dia da Saudade

Eu acredito que o Dia dos Finados deveria ser chamado de Dia da Saudade. Os mortos não morrem na saudade. Continuam vivendo dentro dela. Tanto que a maioria das condolências se refere à "saudade eterna".

A morte não é um fim, mas uma etapa, um ciclo do conjunto da vida. A morte não destitui a vida. É ainda vida. A despedida é a esperança do reencontro.

A tradição nos incute a ideia de futuro interrompido, levando-nos a lamentar a intimidade cortada e o que não será testemunhado por quem partiu. Não se fala, em nenhum instante, do passado inesgotável em aberto. O passado não se finalizou. Há muito para se descobrir sobre ele.

"Saudade" seria um termo mais apropriado, magnânimo e amplo para expressar a permanência do vínculo.

O luto não termina com o que você significou para alguém. Não abole a sua condição, não arranca a sua memória, não extingue a experiência. Se falece a mãe ou o pai, você segue sendo filho. Se falece um filho, segue sendo pai ou mãe. Se falece um irmão, segue sendo irmão.

O luto não termina com aquilo que aconteceu. O luto é o nosso jeito de fazer o ente querido resistir à passagem do tempo. É tudo, menos um vazio, menos uma ausência. O luto revela uma morada, uma presença em você. Você passa a ser habitado por uma cumplicidade, uma amizade inquebrantável.

Na verdade, ocorre uma virada quando você se dá conta de que não perdeu a pessoa, mas ganhou a pessoa definitivamente, apesar de ser um processo difícil, perturbador e doloroso de aceitação.

De repente, transcorreram cinco anos desde o enterro, dez anos, e o apego não altera a sua intensidade. Você só troca a rotina pela fé, e aprende a conviver com o invisível, a procurar conselhos e conversas no legado (percebe que ri como o outro, dobra a roupa como o outro, repete uma frase como o outro).

O morto não envelhece mais. Você guarda a feição que o afeto tinha no momento do desenlace. Mantém a imortalidade do seu último olhar.

Você não o enxerga, mas o sente. Sentir são os olhos interiores. Não tem como diminuir a emoção, ou invalidá-la. Sentimentos são fatos. A impressão física é de que ele recém saiu de perto: a ponto de você se arrepiar com uma rajada quente de vento, a ponto de entendê-la como um abraço, um cumprimento com o rosto encostado no rosto, um beijo cálido.

Você não vem imaginando coisas, tampouco reconstitui apenas o que já foi vivido: essa sensação resulta de um estar próximo perpétuo de quem desejava o seu bem e jamais o abandonará por completo. As recomendações de cuidado se mostram vitalícias.

Existem relatos de gente que é visitada em sonhos durante as piores crises pessoais. As mensagens são os mensageiros e reabrem os caminhos. A saudade sintetiza melhor esta data do que a noção de "Finados", porque ela é um lugar. Um território na alma além dos nossos limites terrenos. Um cantinho em nós mesmos. Um altar em que as velas nunca se apagam. 

O morto não envelhece mais. Você guarda a feição que o afeto tinha no momento do desenlace

CARPINEJAR

02 de Novembro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Afetos tristes

Em seu novo livro, A Máquina do Golpe - 1964: Como Foi Desmontada a Democracia no Brasil (Companhia das Letras, 312 páginas), a historiadora e cientista política Heloisa Murgel Starling reconstitui os oito eletrizantes dias que antecederam a deposição do presidente João Goulart. 

Era para o livro ter saído em 2024, quando o golpe militar completou 60 anos, mas o projeto tomou mais tempo do que o previsto e, por uma dessas emendas que melhoram o soneto, a publicação acabou chegando às livrarias poucos dias antes de outro confronto histórico entre o campo democrático e o pessoal que costuma não se conformar muito com o resultado das urnas - quando perde, of course.

Na excelente entrevista que concedeu ao podcast da Revista 451 no dia 23 de outubro, Starling falou sobre o livro, sobre as eleições que aconteceriam naquele mesmo fim de semana e sobre o risco de o país deixar à solta, mais uma vez, o "cupim" que corrói a democracia por dentro. 

A historiadora não tinha como prever que o cupim seria derrotado no domingo e fugiria do país já na terça-feira, mas sua análise sobre a erosão do espaço público nos ajuda a entender os episódios de assédio eleitoral que estaríamos comentando na semana seguinte: listas negras, boicotes a empresas e profissionais, demissão de funcionários e até o especialmente perverso cancelamento de doações e ações de voluntariado por motivos políticos.

Para a historiadora, estamos tomados pelos "afetos tristes" do ódio e do ressentimento, que nos isolam em bolhas e nos afastam não apenas uns dos outros, mas da realidade. Para combatê-los, diz ela, é preciso voltar a cultivar os "afetos da democracia": 1) a amizade, para tentar ver o mundo do ponto de vista do outro; 2) a tolerância, para ouvir todas as ideias, mesmo as que incomodam; e 3) a compaixão, para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.

Enquanto não chegamos lá como sociedade, talvez só nos restem a reflexão individual e a autocrítica. Antes de curtir, compartilhar ou aderir ao próximo boicote digital contra alguém que expressou uma visão política oposta à sua, imagine um mundo em que o dissenso seja punido. Imagine que tudo em que você acredita, tudo que você considera bom e sensato seja visto pela maioria como ofensivo ou perigoso. 

Quando o tribunal do ostracismo bater à sua porta, exigindo sua demissão ou o fechamento da sua empresa em função do seu posicionamento político, você vai achar justo o castigo? Se a sua resposta for "não", bem-vindo ao postulado ético mais sucinto e mais fácil de entender (embora nem sempre tão fácil assim de executar): nunca faça nada que você não gostaria que se tornasse uma lei universal. _

CLÁUDIA LAITANO

02 de Novembro de 2026
OPINIÃO RBS

É hora de Lula enfrentar a realidade fiscal

Auxiliares e aliados do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva se empenharam nos últimos dias para passar a mensagem de que, no quarto mandato, o petista dará mais atenção à saúde das contas públicas. A reação do mercado financeiro na semana passada mostra que o esforço não gerou nenhuma credibilidade. O índice Ibovespa derreteu 17%, o dólar saltou 9% e os juros futuros subiram mais de dois pontos percentuais. Não são indicadores abstratos. Impactam a vida real dos brasileiros. A gravidade do quadro fiscal exige que o próprio presidente venha logo a público e diga, em alto e bom som, que o terraplanismo econômico de Lula 3 será abandonado.

O endividamento público está em trajetória insustentável. Mantido o negacionismo atual, não há como a taxa Selic cair de forma consistente. Pode até voltar a subir se não houver a sinalização de medidas para um ajuste crível. Nesse cenário, as expectativas de inflação continuarão altas e o dólar seguirá a ganhar força. A desaceleração da economia tende a aumentar. Lula vem subestimando o risco de repetição do que ocorreu no governo Dilma Rousseff, quando a máxima "gasto é vida" gerou dois anos de recessão.

Pelo dado mais recente, de setembro, a dívida pública chegou a 82,9% do PIB, alta de 11,2 pontos percentuais ao longo do atual governo. É o maior patamar desde 2021, quando era inevitável elevar gastos para mitigar os efeitos da pandemia. Conforme a Instituição Fiscal Independente (IFI), o pacote de bondades eleitorais de Lula chegou a cerca de R$ 300 bilhões entre medidas de estímulo ao crédito, despesas primárias e renúncias fiscais. A conta não fecha e as famílias e empresas não suportam mais impostos. É inevitável rever e cortar gastos.

Lula menosprezou a explosão da dívida pública e, durante a campanha, chamou a necessidade de fazer superávit fiscal de "babaquice". Agora, vai encarar a herança maldita legada por ele mesmo. É urgente, portanto, que o presidente indique a equipe econômica, com nomes que passem confiança aos agentes econômicos. E, ainda, que informe aos brasileiros como diminuirá o ritmo de crescimento de despesas diante da relutância em mexer em pontos estruturais, como reajuste acima da inflação para o salário mínimo, a indexação de benefícios e aposentadorias a este, ou então os pisos constitucionais de gastos para a saúde e a educação. Não há necessidade de reduzir gastos sociais, mas fazer com que cresçam a taxas mais parecidas com a inflação.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na semana passada que o Executivo poderia enviar ao Congresso um projeto de lei para obrigar o governo a alcançar o centro da meta fiscal em 2027, e não o piso, como tem sido a prática, maneira malandra de sustentar que cumpre o regime de controle das contas. Pouco adiantará se o Planalto continuar a recorrer a manobras de retirar despesas da conta do arcabouço fiscal. Neste ano, são mais de R$ 60 bilhões. O governo desmoraliza a regra que criou.

Responsabilidade fiscal e cuidado social não são excludentes. Mas o descontrole das contas piora a situação financeira das famílias. O presidente deve ser advertido de que se negar a enxergar o óbvio pode inclusive fazer com que, após o seu último mandato, se despeça da vida pública sendo responsabilizado por uma grave crise econômica. 

02 de Novembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Henrique Ternus

Esquerda terá queda de braço interna pela prefeitura

Uma semana após o segundo turno da eleição nacional, as direções dos partidos começam a se voltar para o cenário local, dando início às articulações para a disputa municipal em 2028. Em Porto Alegre, enquanto líderes da direita já tiveram as primeiras reuniões para projetar o futuro, a esquerda, de ressaca pela reeleição do presidente Lula, começará as conversas inaugurais sobre o futuro nos próximos dias - antecipando uma inevitável queda de braço interna pela sucessão.

Com ampla votação na Capital, o PSOL ganha força para pleitear a cabeça de chapa daqui dois anos. Líderes da sigla avaliam que o resultado expressivo - foi o partido da esquerda que mais recebeu votos nas disputas pelo Senado, para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa - dá estofo para liderar uma candidatura à prefeitura.

Os presidentes municipais do PSOL, Roberto Robaina, e do PT, Rodrigo Dilelio, concordam que uma chapa unificada é o melhor caminho para a esquerda voltar à prefeitura da Capital. Mas a harmonia arrefece quando são questionados sobre quem deve liderar o processo.

- Uma chapa unificada sempre é o melhor, mas também acreditamos que o PSOL deva ter seu peso reconhecido por quem quer vencer. Da última vez, abrimos mão para Maria do Rosário (derrotada em 2024). Não deu certo. Agora abrimos mão para Juliana Brizola (derrotada no primeiro turno de 2026), muito a contragosto, mas para não romper. Nem para o segundo turno foi, como alertamos. Agora será diferente - avisa Robaina, que não tem previsão de quando reunirá a direção do PSOL para discutir o futuro.

Mais cauteloso, Dilelio avalia que a esquerda como um todo saiu fortalecida da eleição e diz que consultará as bases e a direção partidária para tomar qualquer decisão sobre futuro do partido e nomes para a disputa.

- A unidade é um caminho desejável, mas isso depende do balanço que cada organização do nosso campo vai fazer. Não anunciarei nomes sem antes ouvir a base do PT sobre a façanha alcançada no segundo turno. Quem tomou parte nisso sabe quais organizações saíram fortalecidas. As ruas foram tomadas por bandeiras vermelhas - projeta Dilelio, que terá reunião com a direção executiva municipal na quarta-feira para avaliação e projeção eleitoral.

Nomes ventilados

Mesmo com conversas ainda incipientes, três nomes despontam no PSOL para a disputa: Manuela D?Ávila, Fernanda Melchionna e Matheus Gomes, os três com votações expressivas na Capital. No PT, ventila-se o nome de Edegar Pretto, em troca de ter aberto mão da cabeça de chapa na eleição estadual. Leonel Radde, Sofia Cavedon e Laura Sito também são possibilidades.

Na última quinta, PP e PL decidiram que terão candidatos próprios na disputa. Any Ortiz (PP), Comandante Nádia (PL) e Jessé Sangalli (PL) são os nomes mais especulados neste momento. _

Melo quer Alceu Moreira em POA

Definidas agências de comunicação

O vereador e recém-eleito deputado federal Jessé Sangalli colocou seu nome à disposição para disputar a prefeitura de Porto Alegre em 2028 pelo PL. Ele foi o único a manifestar interesse durante o café da manhã em que os integrantes do partido decidiram por apresentar candidatura própria na eleição municipal, na última quinta.

Terceira colocada na licitação para contratar duas empresas de comunicação digital para o governo do Estado, a Partners Comunicação Integrada, de Minas Gerais, foi chamada após desistência da agência HOC, e dividirá a operação com a Escala Comunicação e Marketing.

A sessão de abertura dos documentos de habilitação das agências será no dia 26. Elas serão responsáveis por um contrato de até R$ 15,6 milhões no primeiro ano. A previsão é de que o contrato seja assinado ainda este ano, e as operações comecem em 2027. _

Com PL e PP já se movimentando, o prefeito Sebastião Melo quer garantir espaço para o MDB nas discussões sobre a sucessão na prefeitura. Por isso, convidou o deputado federal Alceu Moreira a trocar o domicílio eleitoral de Osório para Porto Alegre, possibilitando que possa concorrer na Capital em 2028.

- Alceu fez boa votação e pode ser esse nome. MDB tem que ter uma alternativa tal qual os outros partidos podem lançar as suas - disse Melo à coluna, reforçando que houve apenas um convite e que Alceu não tomou uma decisão. _

Corrida com a Guarda

O prefeito Sebastião Melo não só prestigiou o evento como também correu, e valorizou o trabalho da Guarda e a integração entre os servidores:

- Porto Alegre se orgulha de ser a Capital das Corridas, mas se orgulha muito também da Guarda Civil Metropolitana. 

POLÍTICA E PODER

02 de Novembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Por que prestar atenção nas eleições dos EUA

Porto Alegre no clima de Halloween

Amanhã, americanos votam nas midterms. Poucas eleições de meio de mandato mobilizaram tantos temas que dizem respeito ao presente e ao futuro dos Estados Unidos - e, ato contínuo, de países que estão em sua zona de influência, como o Brasil.

A coluna separa alguns assuntos para prestar atenção nesta terça-feira. _

Principais temas

As midterms abrem espaço para uma espécie de prévia informal. Essa etapa é conhecida como invisible primary, uma disputa que ocorre nos bastidores para identificar os futuros candidatos à presidência de 2028. Políticos viajam pelo país, arrecadam recursos, apoiam candidatos ao Congresso e procuram conquistar influência antes de anunciarem suas candidaturas. No governo, há figuras conhecidas: o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio, o governador da Flórida, Ron DeSantis, e o senador pelo Texas Ted Cruz. Do lado democrata, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, a ex-vice-presidente e candidata derrotada por Donald Trump Kamala Harris, o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, e a deputada por Nova York Alexandria Ocasio-Cortez.

Em cinco itens, os desafios políticos desta disputa.

Porto Alegre entrou, de vez, no clima de Halloween. Um exemplo: na sexta-feira, cerca de 80 crianças e adolescentes percorreram, com suas famílias, algumas ruas do Centro Histórico para se divertir. O evento começou no Colégio La Salle Dores e seguiu por dois caminhos diferentes. Os grupos se reuniram, ao final, na pracinha da Fernando Machado. Comerciantes e condomínios fizeram parte das paradas ao longo do percurso para a doação das gostosuras. _

O que está em jogo

Na Câmara, todas as vagas estarão em disputa. São necessárias 218 cadeiras para garantir a maioria. Hoje, republicanos ocupam 218 e contam com um deputado independente que integra seu bloco parlamentar. Os democratas têm 214 representantes e duas cadeiras estão vagas. Para chegar à maioria, os democratas precisam de pelo menos quatro assentos a mais. Os republicanos precisam manter as 218. Podem, no máximo perder uma, desde que mantenham o apoio do independente.

No Senado, das cem cadeiras, 35 cadeiras estão em disputa (22 que hoje estão com republicanos e 13 que estão com os democratas). Atualmente, são 53 republicanos contra 45 democratas, além de dois independentes alinhados à oposição. Para assumir o controle da Casa, os democratas precisam de um ganho líquido de quatro cadeiras, chegando a 51 dos cem assentos. Os republicanos podem perder até duas. Empate de 50 a 50 favorece o governo Trump.

E para o Brasil?

Pouco muda. Mas a Constituição americana atribui ao Congresso o poder de regular o comércio exterior e estabelecer taxas. No caso das tarifas, uma maioria democrata poderia convocar o secretário de Comércio, investigar os impactos nas mesas dos consumidores americanos e propor legislação para restringir a autoridade presidencial. Isso não significa que o Congresso consiga imediatamente reduzir as tarifas. O governo de Trump poderia vetar as propostas. Uma vitória na Câmara também permitiria aos democratas iniciar investigações de impeachment, e, com maioria simples, aprovar uma acusação formal contra o presidente. Afastar Trump, no entanto, exigirá a aprovação de pelo menos dois terços no Senado.

Democratas já discutem investigações sobre negócios da família Trump, operações do ICE contra imigrantes, possíveis violações de direitos civis e atividades do governo no Exterior - leia-se Venezuela, Irã e Faixa de Gaza. O Brasil poderia figurar entre os temas.

Battistella une dois mundos

Zucco não irá à COP31, na Turquia - A nova geração

O governador eleito Luciano Zucco (PL) não participará da COP31, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que ocorrerá na Turquia, a partir do dia 9. Ele havia sido convidado pelo governador Eduardo Leite. A equipe de transição explica que há muitas demandas da transição e de montagem de governo. Por isso, Zucco ficará no Estado. Leite irá. Sua agenda em Antália deve ser entre 9 e 13 de novembro. _

O CEO da Be8, Erasmo Carlos Battistella, recebeu o Prêmio Pigafetta 2026, honraria concedida a empresas estrangeiras fundadas e dirigidas por descendentes da região de Vicenza, na Itália. A cerimônia ocorreu na sexta-feira, no Teatro Olímpico de Vicenza. Promovido pela Câmara de Comércio de Vicenza e pela Associação Vicentinos no Mundo, o prêmio reconheceu a Be8 pela projeção internacional, atuação em exportações e excelência. _

É importante também prestar atenção às novas gerações dos partidos, como o candidato ao Senado Jon Ossoff, na Geórgia, Abdul el-Sayed, no Michigan, e James Talarico, no Texas. Do lado republicano, Ashley Hinson, em Iowa, Vivek Ramaswamy, em Ohio, e Byron Donalds, na Flórida.

Trump de olho

Se os democratas conquistarem maioria em pelo menos uma das Casas (na Câmara é mais provável do que no Senado), Trump será colocado na defensiva pelo resto do mandato, os próximos dois anos. Na Câmara, poderiam, por exemplo, ser abertas investigações sobre sua administração, como no caso das ações do ICE, por exemplo. Um tema sensível é o orçamento de 2027: disputas sobre o financiamento do governo e o teto da dívida podem se intensificar. 

Um impasse no orçamento pode provocar paralisação parcial da gestão, o chamado shutdown. Casos como Ucrânia e Oriente Médio dependeriam da derrota também no Senado - um Congresso democrata poderia aprovar recursos adicionais para defesa aérea da Ucrânia. No Oriente Médio, poderia ampliar investigações sobre uso de armamentos americanos na Faixa de Gaza.

Maira Caleffi, do RS e do mundo

De olho em 2028

A mastologista Maira Caleffi foi reeleita para o Conselho Diretor da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), uma das principais organizações globais dedicadas ao enfrentamento da doença.

Maira, que é chefe do Núcleo de Mama do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, e fundadora da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), conquistou uma das 14 vagas do conselho em uma eleição que mobilizou mais de mil membros da entidade em todo o mundo. Maira é a única representante brasileira no colegiado, onde permanecerá até outubro de 2028. 

Na edição de 2026 do ranking Legal 500, uma das publicações jurídicas mais reconhecidas do mundo, o escritório de advocacia Ritter Linhares Advocacia Criminal continua sendo o único do Rio Grande do Sul a figurar na categoria direito penal e econômico.

INFORME ESPECIAL

Estoque de imóveis supera R$ 9 bilhões em Porto Alegre

Em Porto Alegre, estoque de imóveis novos supera R$ 9 bilhões

Em Porto Alegre, estoque de imóveis novos supera R$ 9 bilhões

TÂNIA MEINERZ/JC

Gabriel Margonar
Gabriel MargonarRepórterEsperar pela queda dos juros antes de comprar um imóvel pode parecer a decisão mais econômica, mas também envolve um risco: encontrar preços mais elevados quando o financiamento ficar mais barato. Essa é a avaliação do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), que identifica no atual cenário de incerteza econômica do País uma possível oportunidade para quem pretende adquirir a casa própria.
A expectativa é de que a recuperação da confiança e a redução das taxas de juros ampliem a procura por imóveis, enquanto a oferta deve levar mais tempo para acompanhar esse movimento.
Segundo o presidente do Sinduscon-RS, Rafael Garcia, a história do mercado imobiliário brasileiro mostra que períodos de crise podem abrir oportunidades antes de novos ciclos de valorização. Nas últimas duas décadas, o setor atravessou a expansão do crédito nos anos 2000, a recessão de 2015 e 2016 e a recuperação impulsionada pelos juros historicamente baixos durante a pandemia.
"Quando as taxas de juros caírem, muito mais pessoas terão condições de entrar no mercado imobiliário, financiar imóveis e retomar seus planos de compra. Porém, quem esperar o financiamento ficar mais barato corre o risco de encontrar imóveis mais caros", afirma.
O dirigente destaca que a construção civil não consegue responder imediatamente a um aumento da demanda. Entre o planejamento e a conclusão de um empreendimento, o processo pode levar vários anos. Assim, a redução dos lançamentos hoje pode significar menos unidades disponíveis quando o mercado voltar a crescer.
"Uma prestação menor não significa necessariamente uma compra mais barata, caso o preço do imóvel suba e consuma a economia proporcionada pela redução dos juros", observa Garcia.
A avaliação é compartilhada pelo diretor do Sinduscon-RS responsável pelo Panorama do Mercado Imobiliário, Claudio Schuch. Segundo ele, os custos de terrenos, materiais e de mão de obra aumentaram nos últimos anos, enquanto parte das incorporadoras precisou reduzir suas margens para manter os preços compatíveis com a capacidade de pagamento dos consumidores.
"Se os juros começarem a cair, mais consumidores terão condições de financiar um imóvel. A demanda tende a aumentar, mas a oferta não consegue responder imediatamente", explica.
Apesar da perspectiva de valorização do setor, o movimento não é garantido. A trajetória dos juros, o desempenho da economia e a capacidade financeira das famílias serão determinantes para uma eventual recuperação.

Veja os números de agosto

Os números do Panorama do Mercado Imobiliário ajudam a dimensionar o atual momento da Capital. Em agosto de 2026, Porto Alegre contabilizava 5.445 imóveis novos disponíveis, distribuídos em 354 empreendimentos, com Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 9,087 bilhões. O levantamento considera o mercado fora do programa Minha Casa, Minha Vida.
No mês, foram comercializadas 319 unidades, movimentando R$ 571 milhões. O resultado ficou abaixo da média de 364 imóveis vendidos mensalmente nos seis meses anteriores. Os lançamentos também perderam força: apenas 20 unidades chegaram ao mercado em agosto, diante de uma média mensal de 106 no semestre anterior.
A redução dos novos projetos ajuda a explicar a diminuição do estoque em relação a julho, quando havia 5.539 unidades disponíveis. Para Schuch, esse recuo não significa necessariamente uma aceleração das vendas.
Um indicador destacado pelo diretor é a diminuição da participação dos imóveis prontos no estoque. Atualmente, eles representam 6% das unidades disponíveis, enquanto 58% estão em construção e 36% correspondem a lançamentos.
"Isso mostra que os imóveis prontos estão sendo absorvidos pelo mercado. Existe uma demanda importante por esse tipo de produto porque o comprador consegue se mudar imediatamente, deixar de pagar aluguel e começar a utilizar o imóvel", afirma.
Embora os juros elevados afetem o mercado como um todo, os imóveis destinados à classe média são os mais prejudicados. Segundo Schuch, empreendimentos com preços entre aproximadamente R$ 600 mil e R$ 1,3 milhão enfrentam dificuldades tanto na comercialização quanto na viabilidade de novos projetos.
De um lado, os compradores encontram financiamentos caros e exigências de renda que restringem o acesso ao crédito. De outro, as construtoras precisam equilibrar custos crescentes com preços que caibam no orçamento das famílias.
"Hoje, temos um mercado bastante concentrado nos extremos: unidades compactas e imóveis de alto luxo. O segmento intermediário, que depende mais do financiamento tradicional, está enfrentando as maiores dificuldades", resume Schuch.
Para Garcia, essa combinação representa uma "tempestade perfeita". O presidente observa que parte das empresas tem priorizado empreendimentos enquadrados no Minha Casa, Minha Vida ou projetos de alto padrão, nos quais há maior possibilidade de repassar os custos aos compradores.
Os dados de agosto também revelam diferenças importantes entre os bairros de Porto Alegre. No segmento residencial vertical, o Passo da Areia liderou as vendas em quantidade, com 38 apartamentos comercializados, seguido por Petrópolis, com 37, e Mont Serrat, com 26.
Quando o critério é o volume financeiro, Petrópolis aparece na primeira posição, com R$ 87 milhões movimentados, equivalente a 22% do VGV residencial vertical do mês. Rio Branco, com R$ 36 milhões, e Bela Vista, com R$ 35 milhões, completam as primeiras posições.
Nos lançamentos acumulados entre setembro de 2025 e agosto de 2026, o Menino Deus liderou em unidades, com 801 apartamentos, enquanto Bela Vista concentrou o maior volume financeiro, de R$ 662 milhões.
Para 2027, Garcia aponta ainda o Litoral Norte, a Serra Gaúcha e Passo Fundo como regiões com potencial de expansão imobiliária. Na Capital, a expectativa também passa pelas novas regras do Plano Diretor, que influenciam o planejamento das incorporadoras.