quarta-feira, 12 de maio de 2021


12 DE MAIO DE 2021
MÁRIO CORSO

Herança maldita

O dia de Mônica amanheceu perfeito. Tinha uma missão inusitada: anunciaria uma excelente notícia para um casal de irmãos. O pai viúvo falecera sem deixar testamento, portanto eles eram os únicos beneficiados de uma conta bancária. Ocorre que para eles seria uma surpresa, pois o pai morrera na aparente pobreza. Era homem simples, sem luxos, sem bens.

Os valores, convertidos ao real, pois escutei essa história no Uruguai, seriam algo como 1 milhão para cada filho. É como ganhar na loteria sem ter jogado. A origem do dinheiro era legal. Fora acumulada lentamente ao longo de décadas, portanto compatível com a vida do falecido.

Os irmãos moravam no subúrbio da capital e estavam na casa dos 60. Ele trabalhou numa oficina mecânica até ter problemas na coluna e agora cuida de uma garagem no centro. Ela sempre trabalhou de diarista. A imagem era daquelas pessoas que apanharam da vida, aparentavam ser mais velhos do que eram.

Pois as boas novas não foram recebidas como ela supunha. Depois de tudo explicado, o homem ficou transtornado. Como se algo de que ele já desconfiasse tivesse ganhado corpo. Xingou o pai com todos os impropérios da língua espanhola. Enquanto isso a irmã chorava.

Mônica não entendia a revolta. A morte se dera já há algum tempo, não parecia ressaca pelo luto. Então o senhor pediu desculpas pelo destempero e desfiou sua dor: "Ele nos criou na miséria, não terminamos os estudos para trabalhar. Nossa falecida mãe nunca teve roupa que não fosse um trapo. Esse dinheiro é o que ele poderia ter trazido para casa, mas nunca trouxe".

Então, Mônica entendeu. Quando ela nos contou, criou uma metáfora que não poderia ser mais perfeita nem mais uruguaia: "Quando o churrasco deles chegou, já não tinham mais dentes". É claro que ainda teriam idade para aproveitar a bonança, mas era de fato tarde para aplacar as marcas de uma vida de privações desnecessárias.

A imagem do pai que eles possuíam era neutra, mas com a herança ficou negativa. Nunca saberemos ao certo as razões do finado de privar a si, à mulher e aos filhos de seu próprio dinheiro, mas sabemos que o tempo não volta. Sabemos também que o investimento nos filhos é uma extensão do próprio narcisismo: queremos que nos orgulhem, como uma parte de nós próprios que segue adiante, de preferência melhorada.

Esse pai sovina, que nunca propiciou um brinquedo, uma tevê em casa, um domingo de sol com choripán na rambla, estudos e bem-estar, impôs aos filhos sua própria desvalia e desesperança. Descrente de si e do próprio futuro, deixou como verdadeira herança sua tristeza. Essa, não há dinheiro que apague.

MÁRIO CORSO

terça-feira, 11 de maio de 2021


11 DE MAIO DE 2021
HUMBERTO TREZZI INTERINO

Um mundo sem Judiciário... e sem justiça

O ataque hacker aos computadores do Judiciário estadual devolveu, por algum tempo, os operadores do Direito à rotina da tinta, do papel e das cansativas discagens ao telefone, quase sempre ocupado. Por uns dois dias, nenhum serviço rotineiro funcionou. Policiais e advogados ligavam direto aos juízes, quando tinham o número. Não tinha o número? Problema dobrado.

Aí o sistema e-Proc, usado para processos recentes, foi recuperado pelo Tribunal de Justiça e os mandados judiciais e depoimentos voltaram a ser documentados virtualmente. Já os processos um pouco mais antigos, movimentados via sistema Themis, continuam parados.

Tive uma boa conversa com o juiz Luís Otávio Braga Schuch, que atua há mais de duas décadas em Camaquã. Diante da instabilidade do e-Proc e da inoperância dos sistemas Themis e e-Themis (uma versão mais recente do seu xará, para processos cíveis e fazendários), o magistrado decidiu fechar o fórum, que já funcionava de forma precária durante a pandemia. Não quer abrir o prédio apenas por abrir, já que há orientação de que os computadores dos funcionários sejam evitados, na dúvida sobre se estão contaminados. Como o município é pequeno, ele passou a receber pedidos e documentos direto de advogados e promotores, por e-mail, que depois são impressos para virarem documentos formais. Cenário que se repete em grande parte das comarcas.

Conheço muita gente de terno e gravata que vibra com essa inoperância judicial. Acham que o Judiciário gasta demais, que tem tendência a libertar criminosos e, por isso, deve ser extinto. Sonham com um mundo sem juízes - e sem advogados, claro, vistos como auxiliares dos magistrados nessa simpatia por bandidos.

É interessante ressaltar como seria esse mundo. Sem Justiça, vigoraria a lei do mais forte, um retorno às cavernas. Comprou numa loja e não recebeu o prometido? Vá se queixar ao bispo, porque juízes já não existem. Foi atropelado, ficou sem poder trabalhar? Não adianta reclamar. Foi demitido, não recebeu o Fundo de Garantia e o patrão não quer pagar seus direitos? Lamento, não há mais a quem apelar. Foi espancado durante um assalto, apenas por diversão? Chama outra turma para dar o troco, já que o Judiciário está extinto. Imaginem que beleza: o planeta transformado numa guerra de gangues ao menor sinal de discordância. A anomia, a ausência do Estado - e da lei.

Ah, mas existe a polícia. OK. Mas, quando o policial comete abusos, a quem esses ativistas anti-Judiciário irão se queixar? Fico imaginando essa gente que se acha séria, ansiosa por um mundo mais simplista, indo morar numa ilha. Lá, eles teriam de conviver com seus opostos: jovens cabeludos, de roupas descontraídas, que dizem que a polícia não é necessária porque ela é sinônimo de opressão. Sem juízes e sem policiais, restaria a esses dois grupos se engalfinharem até os problemas acabarem. Só que não, né?

Pense nisso, enquanto se delicia quando o Estado emperra. A vítima pode ser você. Todos nós, na real.

*O colunista David Coimbra está em licença-saúde - HUMBERTO TREZZI | INTERINO


11 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

INCERTEZAS NA VACINAÇÃO

Se há algo que merece reconhecimento quanto à vacinação contra a covid-19 no Rio Grande do Sul é o fato de o Estado liderar há um bom tempo o ranking nacional de imunização. Até o fim de semana, mais de um quinto dos gaúchos aptos já havia recebido a primeira dose. Até poderia ser uma marca a ser ainda mais celebrada, não fossem as demais incertezas, como o pequeno percentual da população contemplado com a segunda aplicação, abaixo dos 10%, as dúvidas quanto a novas remessas de insumos da China para o Instituto Butantan e o atraso nas entregas da Fiocruz por uma série de fatores. São situações que preocupam, por deixarem uma parcela significativa do público- alvo ainda suscetível à infecção. É um quadro que reforça a necessidade de redobrar todos os cuidados pessoais, em um contexto de reabertura de atividades no Estado.

O Rio Grande do Sul tem cerca de 400 mil pessoas que não receberam a dose de reforço da CoronaVac pela indisponibilidade do produto. A angústia para completar o esquema vacinal foi claramente percebida durante a semana passada, com as enormes filas nos pontos de vacinação, sem que todos tivessem o esforço e a paciência premiados, apesar de horas de espera, em muitos casos sob mau tempo. Embora o atraso não represente um grande risco, sabe-se que o ideal, para a eficiência máxima, é a segunda dose da CoronaVac ser aplicada em um intervalo de até 28 dias após a primeira, o que não vai ocorrer para um grande número de gaúchos.

O Butantan alertou ontem que há grande ameaça de um atraso na produção ainda maior em junho, comprometendo o cronograma de entrega, pela falta do chamado insumo farmacêutico ativo (IFA), cujas remessas estão atrasadas pela China. A Fiocruz sofre com o mesmo problema. Mas, enquanto o Brasil precisa contar com a boa vontade de Pequim, assistiu-se nas últimas semanas ao ministro da Economia falar mal da China, com informações erradas, e o presidente da República, de maneira irresponsável, vocalizar teorias conspiratórias já várias vezes rebatidas.

Fabricante da vacina Oxford/AstraZeneca, a Fiocruz, por sua vez, também vem descumprindo suas promessas de entregas, justificando a incapacidade de seguir o cronograma pela demora na chegada do IFA, a quebra de uma máquina, mas também por questões burocráticas que levaram a uma demora maior do que o esperado na liberação de doses prontas que vieram da Índia. Com tamanhas indefinições e hesitações, pouco adianta Estados e municípios estarem preparados, com o auxílio da sociedade civil, para reduzir carências de estrutura, se falta o principal. E se não é possível ter certeza de que, nas próximas semanas, o ritmo de remessas poderá se aproximar do projetado. Por enquanto, chegam a conta-gotas.

O avanço vagaroso da vacinação acende uma luz de alerta. Mesmo os vacinados com a primeira dose não têm toda a proteção potencial e assim ficam também vulneráveis ao contágio. O risco pequeno cresce inclusive para quem foi imunizado duas vezes, por não existir 100% de eficácia. Há exposição ao surgimento de variantes e, assim, elevam-se as possibilidades de novo aumento de transmissão. Espera-se que autoridades responsáveis do governo federal consigam contornar o mal-estar com a China, para a normalização da entrega de insumos, e que a Fiocruz solucione suas dificuldades, inclusive operacionais. Até lá, resta à população intensificar a atenção, evitando aglomerações, fazendo a higiene das mãos e usando sempre e de forma correta máscaras, de preferência as mais eficientes, do padrão FF2/N95.


11 DE MAIO DE 2021
+ ECONOMIA

No quinto, e subindo

Pouco mais de dois anos depois de desembarcar em Porto Alegre com sua proposta de aluguel sem seguro-fiança nem cartório, a Quinto Andar começou ontem a cadastrar imóveis para atuar na compra e venda. Conforme o gaúcho Arthur Malcon, líder do segmento, afirma que a imobiliária digital já fecha 30 negócios por dia apenas em São Paulo, Rio e Belo Horizonte e tem 50 mil imóveis em estoque.

- Vamos simplificar esse processo. Toda a operação ocorre na plataforma, de ponta a ponta. Cuidamos de registros e matrículas. E intermediamos o pós-contrato. Se o cliente precisar, ajudamos a identificar a melhor opção de financiamento.

A compra e venda de imóvel pela Quinto Andar leva cerca de 50 dias, segundo a empresa, ante até 420 dias no modelo tradicional e média de 90 dias em outras plataformas imobiliárias. A empresa dá informações sobre a situação legal do imóvel e ajuda na burocracia da documentação.

Análise da Federação Nacional de Saúde Suplementar (fensaúde) mostra que o Rio Grande do Sul teve a menor adesão a planos de saúde da região sul. o aumento entre os gaúchos foi de 1,46%, ante 1,73% no Paraná e 2,64% em Santa Catarina. O paraná consolidou o maior número de beneficiários: 2,9 milhões.

US$ 89,4 bi

é a projeção do governo para o superávit da balança comercial de 2021. A estimativa cresceu com a alta de matérias-primas como minério de ferro e soja. Hoje, os chamados termos de troca (relação entre preços de exportação e de importação) estão 10,7% acima dos de fevereiro de 2011, ápice do "boom das commodities" ao qual se atribui o forte crescimento do país à época.

+ ECONOMIA

11 DE MAIO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

O "coronapasse" dinamarquês

- Estou impaciente. Tenho saudades do cinema. Estou ansiosa para voltar a ver um filme no telão - confessa uma dinamarquesa que, com seu "coronapasse" na mão, pode desfrutar a reabertura de cinemas, academias e salas de teatro na Dinamarca.

Como em restaurantes, cabeleireiros e museus, para entrar no cinema, é necessário apresentar esse passaporte de saúde que atesta um teste negativo de menos de 72 horas, uma vacinação, ou uma recuperação recente da covid-19. A lógica é a seguinte: você faz um teste rápido, gratuito, e depois recebe um passe no celular quando o resultado fica pronto. Você entra e mostra seu passe e sua carteira de identidade.

Lançado discretamente no início de março, quando os zoológicos foram reabertos, o uso do passe foi sendo estendido a cada estágio da flexibilização das restrições sanitárias.

- É um grande sucesso, porque combinou a reabertura da economia com a aceleração dos testes de diagnóstico - estima Lars Ramme, funcionário da Câmara de Comércio Dinamarquesa.

Bares, cafés e restaurantes utilizam-no sem problemas desde 21 de abril. O passe digital está disponível no aplicativo "Min Sundhed" ("Minha saúde"), mas também há uma versão em papel.

No momento em que apenas 12,7% dos dinamarqueses estão totalmente vacinados, o princípio do passe de saúde depende, acima de tudo, dos testes de diagnóstico gratuitos, implantados em grande número por atores públicos e privados. No centro da capital dinamarquesa, a empresa Copenhagen Medicals transformou uma enorme sala de concertos em um centro de diagnóstico, por onde passam até 3 mil pessoas por dia. Diariamente, até 500 mil testes podem ser realizados no reino nórdico.


11 DE MAIO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Ora aí!

Para fugir um pouco da nossa triste realidade, imaginei um diálogo entre o Cristo do Corcovado e o Cristo de Encantado, o redentor e o protetor, gêmeos na aparência e nas boas intenções de seus construtores e devotos:

- O povo brasileiro está precisando de nós - comenta o carioca, mais experiente na administração das mazelas nacionais.

- Se for por falta de comida, pode contar com a gente daqui - responde o gaúcho, abrindo os braços sobre as plantações e os criadouros de porcos e aves do Vale do Taquari.

- A fome é uma ameaça, mas no momento o que mais nos falta é vacina - comenta o outro, voltando-se instintivamente para os lados da Fiocruz, mas ciente de que a maior carência não é de ciência, e sim de consciência.

- Por aqui a imunização também anda escassa - reconhece o rio-grandense, compadecido com o sofrimento e a indignação nas filas da vacinação.

- Mais escassa anda a humanização - filosofa o de lá, referindo-se não apenas aos milhares de mortes diárias que já viraram rotina, mas também à mais recente chacina.

- Você está precisando de proteção? - questiona o encantadense, fazendo jus ao nome que lhe foi dado por seus idealizadores.

- O que todos nós estamos precisando é de muita oração - responde sensatamente o Redentor.

- E também de compaixão, compreensão e afeição - complementa o Protetor.

- Verdade. Já não aguento mais ver tanto ódio nas redes sociais - desabafa o mais antigo.

- E faz 2 mil anos que a gente vem dizendo: ame seu inimigo - concorda o novato, que já nasceu com a sabedoria dos séculos.

- Talvez a gente tenha que relembrar a cada brasileiro a nossa mensagem mais essencial - sugere o Cristo da cidade maravilhosa, cheia de encantos mil.

- Vamos fazer isso, tchê? - sugere o gaúcho, sabendo que este diálogo imaginário está chegando ao final.

E os dois gigantes de pedra e fé repetem juntos para todo o Brasil uma lição de cristianismo, humanismo e altruísmo que ninguém jamais deveria esquecer:

- Nunca faça para os outros o que não gostaria que fizessem para você.

segunda-feira, 10 de maio de 2021


Mario Quintana e o empacotador

Já fui um competente fazedor de pacotes. Por Deus. Trabalhava na Livraria Sulina, no Departamento de Promoção, e às vezes tinha de empacotar algum livro. Nossa função, lá no departamento, era dar livros para professores, jornalistas e escritores. Volta e meia, precisávamos enviá-los pelo correio, donde a necessidade do pacote.

Muita gente nos visitava só para pegar livros de graça. Nossa sala ficava nos fundos da matriz da Sulina, na Borges. Havia duas entradas: pela frente, por uma galeria, ou por trás, pela livraria. Lembro do Mario Quintana chegando ao nosso setor por aquela porta de trás. Ele vinha sempre sério, sempre carregando uma sacola. Chegava sem falar nada. Nós parávamos o que estávamos fazendo e ficávamos olhando para ele com pesado respeito e, até, leve temor. O Mario Quintana nem nos olhava. Ia direto para as prateleiras, levantava o queixo e analisava os livros. Tirava um e o depositava sobre a mesa. E outro. E outro. E mais outro. Formava uma pilha. Enfim satisfeito, colocava os livros na sacola e ia embora, saindo pela porta da frente, sem sequer dizer babaus.

Se o Mario Quintana quisesse, ficaria feliz em empacotar um livro para ele. Orgulhava-me dos meus pacotes. Eram lisos, simples, porém elegantes. Desenvolvi a técnica observando o Sérgio Lüdtke, que era veterano na livraria e, por consequência, no empacotamento.

Sentia prazer naquela tarefa singela, porque nunca tive destreza em habilidades manuais, embora não as menoscabe. Ao contrário, admiro quem tem jeito para fazer as coisas práticas da vida. Tenho um amigo, o Ércio, que uma vez comandou um trailer de xis e cachorro-quente. Era ele mesmo quem lidava na chapa, preparando xis-galinha, xis-bacon, xis-tudo. Pois, certa feita, o Ércio me contou que conseguia quebrar seis ovos de uma só vez, sem se complicar. Não sei por quanto tempo permaneci de olhos arregalados e boca aberta, após ouvir aquilo. Fico irritado quando vou quebrar um único ovo e pedacinhos da casca caem na frigideira! Desde então, o Ércio se tornou o meu ídolo.

Suspeito que homens com a capacidade de construir objetos com as próprias mãos são mais reflexivos e compreendem melhor a vida. O Paulinho da Viola é marceneiro. Nas horas vagas, ele monta armários, mesas e cadeiras. Atribuo a essa atividade a mansidão com que ele trata o mundo.

Meu avô, já contei, era sapateiro. Mas não apenas consertava calçados; fazia-os ele próprio. Tenho uma foto em que estou dentro de sapatos feitos por ele, eu com cinco anos, ele ao meu lado, com a idade que tenho agora.

Deve ser algo muito especial você ver outra pessoa usando algo que saiu da sua cabeça diretamente para a ponta dos seus dedos.

Ocorre que, outro dia, surgiu-me a necessidade de enviar um material pelo correio. Decidi fazer o pacote, como nos velhos tempos. Quem disse que conseguia? Ora sobrava papel, ora faltava e, quando não sobrava nem faltava, o embrulho saía frouxo, torto, mal amanhado. Desisti. "Perdi o contato com o barro da vida!", suspirei para mim mesmo.

Derrotado, levei o volume para a agência de correio e larguei na frente do funcionário. Ele analisou o objeto, mediu-o com os olhos e pôs-se em ação. Em três ou quatro minutos, produziu um pacote perfeito, reto como o caminho da virtude. Então me olhou, sorrindo, e percebi o que ele estava sentindo.

- Parabéns! - disse-lhe. - Este é um pacote e tanto!

O homem inflou o peito, abriu ainda mais o sorriso e falou:

- Obrigado! Ninguém antes elogiou o meu pacote!

Saí de lá contente, pensando que eu também me sentiria agradecido se o Mario Quintana tivesse elogiado o meu pacote, algum dia. Não fiz o meu pacote, não sei mais fazer, mas fiz algo que valeu o dia. Fiz um bom homem feliz. Que oportunidade perdeu o Mario Quintana.

*Esta crônica foi publicada originalmente em 12 de abril de 2018

*David Coimbra está em licença-saúde

DAVID COIMBRA 


10 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

FRIO E SOLIDARIEDADE

Mesmo que o inverno se inicie oficialmente apenas em meados de junho, é comum que as baixas temperaturas apareçam ainda em maio no Rio Grande do Sul, como vem acontecendo nos últimos dias. Desde o recrudescimento da pandemia, principalmente a partir de março, os gaúchos voltaram a se mobilizar em uma nova onda de solidariedade para amparar a população carente e combater particularmente a fome, chaga que tem acometido um grande número de brasileiros, devido ao alto desemprego.

Mas, no Estado, se faz necessário também mobilizar a sociedade para que se engaje nas iniciativas que visam arrecadar e distribuir roupas e outras peças necessárias para enfrentar os meses mais gélidos do ano, como cobertores, mitigando o sofrimento de um grande número de pessoas que não têm teto ou condições financeiras de se proteger dos efeitos das baixas temperaturas. Atenta a este drama, a prefeitura da Capital lançou na última terça-feira a sua campanha do agasalho 2021, contando com a adesão solidária dos porto-alegrenses que têm itens sobrando e em desuso em casa, mas que podem trazer conforto para os mais vulneráveis. O mesmo fez a gestão municipal de Caxias do Sul, que deu sábado a largada na iniciativa. A campanha do governo gaúcho, por sua vez, foi lançada ainda no final de abril, com mais de um mês de antecedência na comparação com a data do ano passado.

Em Porto Alegre, serão 12 pontos de coleta de agasalhos e de alimentos não perecíveis. Devido aos riscos relacionados à covid-19, os donativos passarão por uma quarentena de 72 horas até o início da distribuição. O mesmo cuidado terá a prefeitura de Caxias do Sul, que estima, neste ano, arrecadar mais de 150 mil peças, entre agasalhos, cobertores, mantas e calçados.

Os gaúchos já deram provas de empatia e de espírito solidário neste ano. Várias prefeituras organizaram coletas de alimentos e roupas nos drive-thrus de vacinação, com grande adesão da população que, de certa forma, retribuía a dádiva da imunização contra a doença que assombra o mundo. Ao lado das iniciativas do poder público, o Rio Grande do Sul tem tradição em mobilizações capitaneadas por empresas e sociedade civil. Estas organizações têm, junto ao desprendimento dos seus voluntários, a capilaridade e a experiência para uma distribuição adequada das doações, fazendo com que os itens cheguem aos que mais precisam.

Além das centenas de milhares de mortes no país, a pandemia também agravou a crise social, levando um grande número de brasileiros ao desemprego, à miséria e à insegurança alimentar. Este triste capítulo será virado, mais cedo ou mais tarde, e muitos que hoje necessitam de ajuda poderão ter a oportunidade de se recolocar no mercado de trabalho, recuperar renda e dignidade. Mas, até lá, será necessário fazer aflorar outra vez a qualidade intrínseca dos gaúchos, a solidariedade, para aplacar a fome e o frio.


10 DE MAIO DE 2021
O PRAZER DAS PALAVRAS

Tártaro

A história é conhecida: em Roma, um mercador de escravos ofereceu a seu freguês favorito, um riquíssimo senador da República, duas peças raras que seus homens tinham trazido do distante reino da Trácia: dois jovens escravos gêmeos, tão idênticos em tudo - no peso e na altura, nas feições, no porte e na maneira de andar - que só se distinguiam pelo brinco que um deles trazia na orelha esquerda. O preço era exorbitante, mas o comprador não hesitou um segundo em fechar o negócio, ansioso por gozar a admiração e a inveja dos convidados de seus famosos banquetes.

Não era passada uma semana quando o mercador recebeu uma ameaçadora visita do senador em pessoa, acompanhado de dois guarda-costas forçudos. Vinha exigir o seu dinheiro de volta porque, interrogando os dois pretensos gêmeos com o auxílio de intérpretes, tinha desmascarado toda a fraude: não eram irmãos coisa nenhuma e nunca tinham se visto até então. Sem se abalar, o mercador limitou- se a lamentar sua má sorte: se tivesse sabido disso antes, teria pedido três vezes o preço cobrado, pois tal semelhança entre dois completos estranhos era cem vezes mais rara do que a semelhança entre dois filhos dos mesmos pais.

Pois, é com esta história que começo a responder à pergunta enviada pela leitora Alzira O., de Foz do Iguaçu: "Professor, sou enfermeira de um dentista aqui de Foz e tive um choque na semana passada quando vi uma cozinheira da TV dar a receita de um bife tártaro, que na hora ela fez parecido com um quibe cru, com uma gema de ovo no meio. Não querendo parecer nojenta, não entendo por que uma comida fina como esta tem o mesmo nome que a gente dá no consultório àquela craca que se forma atrás dos dentes dos pacientes e que tanto trabalho dá para raspar. Quem veio primeiro?".

Prezada leitora, esta é uma das perguntas cruciais de quem investiga a história de uma palavra: quem veio primeiro? Nestes casos, como geógrafos, temos de subir o rio em busca de sua nascente. Há exemplos fáceis: a macedônia de legumes, aquele prato feito com vários vegetais cortados em cubos, recebeu esse nome por analogia com a Macedõnia, nome que antigamente designava a região dos Bálcãs, na sua eterna confusão política e geográfica. O caso de tártaro, porém, o problema é bem mais complexo.

Em primeiro lugar, temos o Tártaro da mitologia grega, uma das regiões em que se dividia o Mundo dos Mortos. Enquanto os heróis e as celebridades ganhavam o repouso eterno nos Campos Elísios, uma espécie de condomínio privilegiado que contava inclusive com um sol e com estrelas próprias, os grandes celerados - isto é, aqueles que tinham cometido crimes contra os próprios deuses - eram encerrados no Tártaro, um abismo escuro e profundo cercado por muralhas triplas e por um rio de lava.

Em seguida, temos os tártaros, habitantes da Tartária, nome usado desde a Idade Média para designar uma região da Ásia habitada principalmente pelos mongóis. O nome original era Tatária, mas ganhou um R e passou a Tartária certamente por influência daquele Tártaro da mitologia greco-latina. O nome dos tártaros ficou conhecido e temido pelas façanhas de Gengis Khan, que nosso João de Barros, escrevendo cinquenta anos depois do descobrimento do Brasil, chamava de Chinchis Cão. Para o Ocidente cristão, esses guerreiros mongóis eram verdadeiros demônios, e não demorou muito para os cronistas espalharem o boato de que eles eram tão selvagens que colocavam tiras de carne crua debaixo de sua sela para amaciá-las e salgá- las com o suor do animal - interpretação equivocada e tendenciosa do costume mongol de aplicar finas fatias de carne fresca nos lugares em que o lombo do cavalo começava a ficar ferido com o atrito da sela. Seja como for, foi daí que se chamou de bife tártaro esse prato que é feito e temperado de várias maneiras, mas sempre à base carne crua moída.

Por último, o terceiro tártaro veio do Latim tartarum, vocábulo que era usado para designar uma crosta calcária que costuma se formar nas tubulações de água e nos recipientes destinados ao fabrico do vinho. Este é o tártaro que costumas ver no consultório, cara Alzira, pois foi assim, por analogia, que também passou a se chamar aquele depósito endurecido - aquela "craca", como dizes na pergunta - que se forma nos dentes ou na borda da gengiva.

Por isso fiz questão de contar a história dos dois escravos: se já seria incomum que o vocábulo tártaro tivesse três significados tão diferentes, muito, muitíssimo mais incomum, então, é o que realmente aconteceu: três vocábulos diferentes, sem nunca se terem visto, acabaram sósias perfeitos.

CLÁUDIO MORENO

10 DE MAIO DE 2021
PROGRAMA SOCIAL

Vida prossegue com (ou sem) o novo auxílio emergencial

Personagens que tinham sido ouvidas em janeiro contam como lidam, agora, com desafios após a chegada da nova leva do benefício

A nova rodada do auxílio emergencial diminuiu o valor do benefício de R$ 600 para parcelas entre R$ 150 (para quem mora sozinho) e R$ 375 (mulheres chefes de família). Com isso, depender do programa de renda é um exercício de sobrevivência, ainda mais em tempos de pandemia e com empregos em escassez, sejam formais ou informais. Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), o desemprego no Brasil ficou em 14,2% no trimestre encerrado em janeiro. É a maior taxa já registrada para o período. Com isso, o país chegou ao número recorde de 14,3 milhões de desempregados.

No final de janeiro, a reportagem contou como estavam vivendo famílias da Região Metropolitana que dependiam do programa de renda após o fim da distribuição do auxílio. Na época, a segunda rodada de parcelas ainda estava no plano das ideias. Pouco mais de três meses depois, a realidade mudou positivamente para algumas das pessoas visitadas pela reportagem - para outras, nem tanto.

Na Lomba do Pinheiro, Zulma Teresinha Alves Antunes, 59 anos, precisou reinventar alguns itens de sua casa. Sem conseguir emprego e dependendo apenas de alguns trabalhos artesanais que executa em casa mesmo - dos quais a demanda está baixíssima, ressalta ela -, viu o fornecimento de água ser cortado. Agora, depende da boa ação de uma vizinha que lhe fornece o mínimo para sobreviver.

A energia elétrica já é fruto de uma ligação direta há muito mais tempo. Mas, o sinal mais triste da miséria imposta pela desassistência do poder público em meio a uma pandemia está no fogão a gás. Agora, o utensílio virou mero item de decoração. O botijão esvaziou-se. Sem dinheiro, Zulma pegou alguns tijolos que tinha em casa e pediu ajuda a um amigo para construir um fogão a lenha. Nesta semana, recebeu a primeira parcela do novo auxílio. Morando sozinha, ela tem direito a R$ 150. A quantia foi suficiente para comprar arroz, feijão, óleo de soja e massa. Carne não é opção. Do montante, ela guardou R$ 20.

- Vou usar esse dinheiro que sobrou para distribuir alguns currículos em locais onde eu tenha alguma chance de conseguir emprego - torce ela, enquanto prepara o almoço na lenha.

Dificuldades

A última ocupação com carteira assinada foi há três anos, como auxiliar de limpeza de uma empresa terceirizada no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Conforme Zulma, a contratante, entretanto, deixou de pagar salários e benefícios dos trabalhadores. Até hoje, ela aguarda resposta da Justiça para receber os valores a que tem direito. No período pré-pandemia, trabalhou informalmente como cuidadora, além de seu apreço pelo voluntariado, com ações sociais feitas na região onde mora, na Zona Leste.

Só que o voluntariado, é claro, não conta como tempo de serviço. Zulma ainda precisa de três anos de contribuição para conseguir atingir o exigido para, enfim, ter renda fixa mensal como aposentada. Promotora social legal, formada pela Themis - Gênero, Justiça e Direitos Humanos, Zulma recebe uma cesta básica e uma recarga de telefone por mês. A entidade tem ajudado as mulheres que são integrantes do grupo que trabalha na valorização e conscientização dos direitos da mulher.

Para além da comida, ela depende, por enquanto, de sua própria arte para sobreviver. De resíduos como garrafas de vidro e de plástico, além de tecidos, tintas e outros materiais, tem tirado o básico para o sustento. Mas a demanda está baixa e falta dinheiro para compra de materiais.

Emprego

Vitória Monique Maciel da Silva, 18 anos, mudou de rotina depois da visita da reportagem no início do ano. Morando na Vila Florescente, em Viamão, ela vivia com o filho, João, dois anos, em uma casa comprada quando ainda estava casada. Com o fim do auxílio emergencial, a corrida pelo primeiro emprego intensificou-se. Sua mãe, que também mora em Viamão, chegou a oferecer-se para cuidar de João caso ela conseguisse trabalho. Era o auxílio que poderia oferecer, pois já lida com o desafio de criar outras duas filhas, irmãs de Vitória, que têm três e 11 anos.

Mas Vitória precisou ir além. A única oportunidade encontrada foi na zona sul de Porto Alegre, em uma rede de supermercados.

Mudou-se para a Capital, trouxe junto João, que agora recebe atenção de uma cuidadora enquanto a mãe comanda a padaria do estabelecimento durante o turno da tarde, até depois das 22h:

- Estou muito feliz com o novo emprego.

Quem também conseguiu deixar o auxílio emergencial para trás foi Brenda Sampaio, 22 anos, moradora do bairro Santa Isabel, em Viamão. Como a reportagem mostrou em janeiro, até o início da pandemia ela trabalhava em uma loja de joias em Porto Alegre. Começou em dezembro de 2019. Mas, logo em março do ano passado, quando os comércios iniciaram longa jornada de portas fechadas, Brenda foi demitida. Em Viamão, ela mora com a mãe e três irmãos. Brenda tem um filho, Murilo, com cinco anos.

Com o fim do auxílio, ela começou a jornada para ajudar nas despesas de casa. Recentemente, conquistou uma vaga no setor de limpeza de um banco. A oportunidade tornou possível a tão desejada reinserção no mercado de trabalho, mesmo dentro da pandemia e com o crescimento do desemprego no país.

ALBERI NETO

10 DE MAIO DE 2021
CLÁUDIA LAITANO

Um cavalo solto no hospital

Quando, certa manhã, o país acordou de sonhos intranquilos, percebeu, abismado, que havia um cavalo solto no hospital.

A tensão no ar era galopante, mas ninguém sabia exatamente o que podia ser feito para resolver o mais novo drama nacional - até porque nunca antes na história desse país um cavalo havia colocado as quatro patas dentro de um hospital.

O próprio cavalo parecia um pouco desconfortável - e entediado - com a situação. Nos tempos em que relinchava solto pelos pastos da vizinhança, jamais havia examinado a sério todos os inconvenientes de trotar solitário pelos corredores estreitos de um hospital. Nem mesmo sua relativa liberdade para cavalgar napoleonicamente de uma ala a outra do sanatório geral - como se soubesse para onde estava indo e qual o sentido de estar ali - aliviava a nostalgia do ócio quadrúpede para o qual demonstrava natural talento e nítida vocação.

Enquanto os mais cautelosos ficavam aflitos imaginando quantos estragos um cavalo desgovernado poderia causar em ambiente tão despreparado para rompantes equinos, a turma do deixa-disso garantia que não havia por que se preocupar. Dentro do hospital, diziam, o cavalo em breve aprenderia a se comportar e, bem orientado, talvez até ganhasse alguma destreza praticando cirurgias (a evidente ausência de polegar opositor nas patas em questão não lhes parecia uma limitação relevante a ser levada em conta).

A genial imagem do cavalo solto no hospital foi criada pelo comediante americano John Mulaney, pouco depois da eleição de Donald Trump, e faz parte de um espetáculo de stand-up disponível na Netflix (Kid Gorgeous at Radio City). Há quem diga que se trata da melhor piada-síntese sobre a era Trump - e eu concordo. Durante o show, Mulaney conta que nunca havia se interessado tanto assim por política antes, mas, penso eu, quando um cavalo entra em um hospital, é difícil não perder as rédeas da situação.

O comediante Paulo Gustavo também não parecia muito interessado em política. Ainda que toda piada carregue uma certa visão de mundo - e a dele fosse essencialmente amorosa e libertária -, sátira política não era sua praia. Calhou de ser política, porém, uma de suas últimas falas, a mais repetida nas redes sociais nos últimos dias. Uma mensagem tão eloquente quanto foi sua própria morte, aos 42 anos, no dia em que se iniciava a CPI que anda assustando alguns cavalos soltos por aí: "Rir é um ato de resistência".

CLÁUDIA LAITANO

sábado, 8 de maio de 2021


08 DE MAIO DE 2021
LYA LUFT

Sobre amor e morte

O mar dos meus amores é turvo de desencanto. Não é azul nem verde: é marinho.

Na crista do sonho, um raro gesto faz desmaiar sereias no mar das minhas dores, escuro do naufrágio do mundo. O cavalo da espuma deixa pelo caminho a luz dos momentos que são mais que muito: são tanto e tão fundo.

O que não posso dizer, o que não cabe em palavras, o que não é para olhares profanos; o que é calado e remoto, meu mais secreto destino como o reverso das ilhas; maremoto mar marinho calado alado e sonoro: mais que navego, imagino.

Pintei o cenário, varri a plateia, arrumei os bastidores. No camarim, frutas e champanha: eu seria a personagem principal.

Depois me sentei no palco. Repassei minhas falas, provei minhas fantasias - e me pus a chorar: nada fazia sentido, nada era meu. (Eu não era eu.)

Viver é todos os dias partejar a vida. Ela nasce com cabeça grande demais, muitos braços. (Às vezes sem pernas.)

Abro meu ventre e minha alma se arreganha como o corpo de uma parturiente. Dar à luz dói e faço isso todos os dias: abro os olhos para a manhã no quarto e começo a parir. Mas nem tudo é ruim. Posso escolher o sexo e a cor dos olhos de cada momento. (Mas nem sempre.)

A parte dura desta humana lida é dizer sim na hora do não, escolher mal entre silêncio e grito, entre a noite e a explosão do dia; ceder quando devíamos negar, dizer não em lugar de afirmar, partir quando era bom amar, fechar-se em vez de abrir a alma toda, e confiar. Sermos tão incertos e indecisos, perdendo o trem, a hora, o agora - mas a gente não sabia.

Então sento-me aqui, neste refúgio, abro a gaveta, e salta uma palavra: dança sedutora sobre o meu cansaço, veste-se de indefinições, vagueia no labirinto das ambiguidades. Acha graça de mim, que espero à frente encontrar a solução dos meus enigmas. Tento uma geometria que a contenha no espaço entre dois silêncios quaisquer, mas ela decide meus passos: peso de fruta no sono da semente, assiste à minha luta quando a desejo aprisionar e, às vezes, até finge que sou eu a senhora, a domadora, a fonte.

Quando entre as almas estarrecidas de se precisarem tanto só restar a dimensão da pele irredutível; quando bocas mastigarem as raízes da paixão; quando não se distinguir o dar do receber; quando entre um e outro desejo se altear o derradeiro grito da consciência e a solidão tranquilamente vier se desnudar: não haverá mais que anjos delirantes e tristes, amando-se infinitamente pelos cantos, a chorar.

As palavras riem dos poetas, pois são livres: nós, mediação incompetente. Porque vemos pouco, vemos insuficiente, vemos errado, plantados num ponto cego.

(O ponto cego é um fenômeno da visão humana segundo o qual, conforme convergência e refração, pode-se ver o que habitualmente permanece oculto: a possibilidade além da superfície, o concreto afirmado na miragem. Assim eu inventei, assim eu decretei, assim é. Isso, para mim, é arte.)

LYA LUFT


08 DE MAIO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Mães pandêmicas

Todas as mães merecem beijos, mimos, afagos neste domingo, mas presto reverência, hoje, às mães que ficaram mais de um ano com crianças em casa, crianças estudando a distância, crianças sem praticar esportes, crianças sem ver os amigos, crianças que ainda não entenderam direito o que está acontecendo.

Sou mãe de adultas - a essa altura, uma sorte. Se fosse mãe de pequenos, não sei se teria conseguido, talvez tivesse entrado em curto-circuito, sei lá. Que bom que as mães são fortes e seguram a barra (claro, os pais têm participação nisso, mas é maio, não agosto, aguardem sua vez).

Parabéns, mães de crianças de dois anos que providenciaram máscaras divertidas e inventaram "bailes à fantasia" em plena segunda-feira à tarde. Parabéns, mães que não puderam festejar o aniversário de cinco anos de seus pimpolhos e providenciaram encontros por Zoom com tios e primos segurando balões e assoprando velinhas. Parabéns, mães de filhos de sete anos que tiveram que lidar com a interrupção do ano letivo, com a frustração da garotada por não começar a trajetória escolar, por não socializar, por não fazer novas amizades, iniciação fundamental de todo ser humano.

Parabéns, mães de meninas que sonhavam em dançar balé, que queriam aprender a jogar tênis, que já tinham descoberto a porta da rua e tiveram que voltar para dentro de seus quartos e aguardar por um tempo indefinido.

Parabéns às mães que tiveram que explicar aos filhos que existe outro tipo de cancelamento: o dos sonhos, o dos projetos, o do crescimento através das vivências fora do lar, em bairros vizinhos. Parabéns às mães que conseguiram fazer com que eles se interessassem por livros, uma escapada que trará consequências magníficas no futuro.

E o que dizer sobre aulas online? Meu respeito às mães sem opção: tiveram que sair para trabalhar, deixando os jovens alunos se virarem em frente ao computador. E também às que puderam trabalhar em home office e que arranjaram uma horinha para fazer os deveres do colégio com seus filhos desmotivados, que deram a eles explicações a fim de ajudá-los a amadurecer em meio ao caos.

Parabéns às mães de adolescentes que os seguraram em casa, que evitaram que eles aglomerassem, que tentaram proporcionar bons momentos entre quatro paredes que substituíssem os encontros da turma, as festas de 15 anos, as viagens para a praia. Parabéns às mães com imaginação, às mães com paciência, às mães que se empenharam além de seus limites, ao contrário de mães que foram desafiadas de outra forma - são muitas as que, como eu, estão há mais de ano sem ver um filho ou filha que vive fora do país.

É dia de celebrar todas as mães e sua sanidade colossal para enfrentar esse período tão enlouquecedor.

PS: Beijo especial à mãe de Paulo Gustavo e a todas que vêm passando por perdas semelhantes. A essas, resta o consolo de terem feito sua parte com todo amor.

MARTHA MEDEIROS 


08 DE MAIO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Um dia de mumu

E ele chegou outra vez, o Dia das Mães. Que a propaganda, com boas intenções e uma premente necessidade de vender no ano inteiro, diz ser todos os dias. Sei. Almoço especial de domingo a domingo. Filhos sem brigar por um turno, pelo menos. Alguém ajudando na louça. O nome disso seria milagre.

Brincadeiras à parte, sempre gostei do Dia das Mães quando era filha. Desde que eu não tinha um centavo e ia ao minimercado Pegue Pague (acho que era isso) com a missão de comprar o pão nosso no fim de cada dia. Lembro de olhar possíveis presentes para a minha mãe por um longo tempo, enquanto os seis cervejinhas esfriavam no embrulho de papel pardo. Pratinhos desemparceirados. Um copo colorido. Um sabonete. 

Aos sete anos, eu não tinha dinheiro para essas extravagâncias. Só via algum no sábado, quando o pai dava um troquinho para comprar lanche no colégio. Devia ser uma estratégia motivacional para nos acordar cedo no sábado, e a gente pulava da cama já pensando no cachorro-quente da cantina na hora do recreio. Quando chegou a minha vez, meu filho não gostava de cachorro-quente, e o despertar para a aula de sábado foi sempre um parto que se repetiu do fundamental ao último minuto do ensino médio.

Não lembro de que jeito, mas no fim eu sempre arrumava uns trocados para o presente do Dia das Mães. Prova disso foram os pratinhos desemparceirados, os copos coloridos e os sabonetes que minha mãe ganhou ao longo dos anos. Em uma das ocasiões, a Selma, que trabalhava lá em casa, foi ao Pegue Pague para me ajudar a decidir. O Pegue Pague era o meu shopping, distante uns três prédios do meu, e do mesmo lado da calçada.

Depois de mexer em todos os produtos possíveis de serem comprados, dos indefectíveis panos de prato a grampos de cabelo, a Selma descobriu um perfume em uma embalagem linda, toda trabalhada no cristal. Eu tinha dois dinheiros, sei lá de qual moeda, e o perfume custava 1,90. Quase chorei, seria o presente mais sensacional que eu jamais teria imaginado dar para a minha mãe. Mais: seria o presente mais sensacional que ela jamais teria recebido na vida, aí incluídos os perfumes franceses que o meu pai comprava de um contrabandista. Sim, meu pai tinha um contrabandista que vendia de cosméticos a calças Lee. Acho que vinha tudo da Argentina, e era uma festa quando ele chegava com as novidades. Na época, se me perguntassem se eu preferia ser médica ou contrabandista, escolheria a segunda opção certo.

Fomos ao caixa pagar, eu mais feliz que abelha na ambrosia. E a moça, implacável:

- São 11,90.

A Selma e eu nos olhamos. Ela era a adulta, e tomou a frente.

- Como assim, 11,90? É 1,90.

- Um perfume desses por 1,90? Vocês duas querem mumu? São 11,90.

Resumindo, a Selma viu o preço errado. Devolvemos o perfume e, provavelmente, saí do Pegue Pague carregando um pano de prato, mais o que ainda não sabia denominar de frustração no último grau.

Mais tarde perguntei para a minha mãe o que significava "querer mumu". Ela disse que era querer moleza, explicação que demorei a entender de fato.

Quando esta coluna for publicada, estarei aproveitando meu mumu: alguns dias no Rincão do Inferno, paraíso para as bandas de Bagé, em uma das poucas interpretações felizes de distanciamento social. Ideia do meu filho, aquele que não acordava cedo no colégio, mas que vem se mostrando bem aceso na vida. Já eu, que não tenho mãe para presentear desde 2005, consolo-me vendo as mães de quem conheço, e de quem nunca vi, tomando suas vacinas em busca de tempos melhores. Queria que esse fosse o presente de todas - e aí me incluo. O jeito é ficar forte e esperar a nossa vez.

Para as mães, um dia feliz e um pouquinho de mumu. Pelo menos hoje.

CLAUDIA TAJES


O AR QUE FALTA

A sensação de tristeza devastadora tem raízes familiares. Juntou-se à bipolaridade e emigrou das crises europeias para o Brasil. O protagonista viveu uma espécie de herança sombria de depressão com explosões de humor. A tal herança não impediu a vida: o pai e o avô conheceram momentos de heroísmo diante da barbárie nazista. O brasileiro, Luiz, construiu uma carreira de sucesso junto a uma esposa amada e brilhante. A vida flui, mas, ao lado de cada nascer do sol, a pantera silenciosa da tristeza total ronda a cena. Aqui, dei pequenos traços de uma narrativa corajosa e bem-feita: O Ar que me Falta, de Luiz Schwarcz, texto biográfico editado pela Companhia das Letras.

Eu tinha lido O Demônio do Meio-Dia, de Andrew Solomon. A obra, grande e densa, trazia também uma narrativa pessoal, porém, tentava ampliar a busca pelas raízes da depressão. Quase tudo o que sei sobre o fenômeno tinha saído do livro de Solomon.

Todos temos amigos e parentes com algum traço das redondezas das zonas cinzentas da alma: depressão, ansiedade extrema, bipolaridade, agorafobia e outros males. São doenças e ainda precisamos superar a psicofobia, ou seja, o preconceito com questões psíquicas. Descrevi a pantera para a narrativa do Luiz. Na verdade, a consciência humana convive com uma manada de transtornos variados. Alguns convivem com seus lobos, panteras e serpentes com certa autonomia. Há pessoas paralisadas e impedidas de prosseguir, como um tuberculoso é impedido de correr longe com seu pulmão comprometido. Temos absoluta compreensão com alguém que tosse sangue; raras vezes, entendemos que há cérebros sem ar que engolem angústias absolutas e maiores do que a mais forte das vontades.

A medicina psiquiátrica cresceu muito e, hoje, traz a marca do maior conhecimento e de novas concepções sobre o complexo mundo da mente. Há 200 anos, o doutor Philippe Pinel (1745-1826) libertou doentes mentais de masmorras. Insistia que as doenças psíquicas eram, enfim, doenças. Lutou muito em sua época.

O rio do conhecimento viu surgirem novas correntes como Sigmund Freud (1856-1939), pensador revolucionário e fundamental. Havia muito a aprender, e cada época trouxe suas dúvidas renovadoras e seus erros ancestrais. O doutor Antônio Egas Moniz (1874-1955) avançou na técnica da arteriografia cerebral e ganhou Prêmio Nobel. O médico havia tratado Fernando Pessoa. Diante de casos graves de pacientes agressivos com alterações de comportamento, o médico desenvolveu uma técnica de intervenção chamada de leucotomia pré-frontal. O resultado era um paciente dócil, sem agressividade e, na maioria das vezes, sem vontade própria. A técnica foi abandonada como medida psiquiátrica, mas deve ser entendida como uma resposta em uma época sem medicamentos muito eficazes diante de pacientes com riscos de homicídio ou suicídio. Uma irmã do famoso presidente Kennedy, Rosemary, foi submetida ao processo. A menina tinha deficiências cognitivas e alguns comportamentos agressivos. O patriarca Joseph Kennedy achou que era intolerável essa vergonha na família e autorizou (sem conhecimento da esposa) dois cirurgiões, Walter Jackson Freeman e James W. Watts, a fazer um procedimento agressivo de lobotomia nela. A jovem de 23 anos perdeu quase toda a mobilidade e poder de fala. Faleceu em 2005, sempre discretamente escondida pela família em clínicas.

Pessoas com especificidades comportamentais já foram exorcizadas, presas, lobotomizadas ou, geralmente, marginalizadas como algo constrangedor para a família. Depressão, por exemplo, é quase sempre vista como falta do que fazer, incapacidade de se ocupar ou simples "frescura". Amamos pessoas do passado que produziram muito e que eram muito atormentadas por pensamentos fixos ou melancolias graves. Fácil elogiar o paciente do doutor Moniz, Fernando Pessoa, ou o grande Van Gogh ou a terrível depressão que acompanhava Michelangelo. Difícil é o parente ou colega de trabalho. O citado poeta português dizia que "para ser cadáver, só me faltava morrer".

Já fui uma pessoa com dificuldade para entender comportamentos ditados por algum transtorno. Tive de ler muito para não pensar mais de forma equivocada. Pude entender que eu me levantava de forma natural todas as manhãs e ia pela rua observando o dia claro ou as tarefas pela frente. Finalmente, com muito desejo de conhecer, entendi que há pessoas para quem cada dia é um peso insuportável e sair do quarto, uma luta por vezes vencida com esforço enorme e, amiúde, uma derrota avassaladora. Entendi que a rua é um ambiente opressivo e sufocante para muita gente e que explosões de raiva ocorrem fora de controle para bipolares. Para muitos dos casos citados, a medicina cresceu e oferece acompanhamentos e medicamentos com relativa taxa de controle e eficácia. Alguns funcionarão como diabéticos por toda a vida: seus remédios de controle de humor ou antidepressivos passam a fazer parte da rotina. Hoje, pela manhã, ao tomar minha dose de estatina para controlar meu fígado que é entusiasmado na produção desenfreada de colesterol, pensei nisso. Tenho uma especificidade hepática que deve ser controlada por medicamento. Tomo uma dose recomendada pelo médico Jairo Hidal e inicio o dia, controlando o desvario de um órgão meu. Sou uma pessoa normal, porque meu mal não provoca tiques ou frases inadequadas. Se, ao lado da estatina, eu tomasse um antidepressivo, pessoas diriam que devo estar desocupado ou sem Deus no coração. Depressão e colesterol, hoje, podem ser controlados. Preconceito continua uma doença complicada. É preciso ter esperança na cura das mentes atormentadas pelo preconceito.

LEANDRO KARNAL 


08 DE MAIO DE 2021
ENTREVISTA

A POESIA É UM DEVER DE ESCRITOR

Altair Martins

Escritor, autor de "Labirinto com Linha de Pesca"

Reconhecido pela prosa, Altair Martins estreia na poesia com Labirinto com Linha de Pesca. O livro dá sequência a um processo de ampliação da atuação do autor, que tem 46 anos e recentemente escreveu as peças de teatro Guerra de Urina (2018) e Hospital-Bazar (2019), atuou no espetáculo Tango para Homens Velhos (2020) e participou da mostra de artes visuais O que Vemos, o que nos Fala (2019). Professor na PUCRS, autor de livros como o premiado A Parede no Escuro (2009), ele revela a seguir o que o levou à linguagem poética. E comenta a persistência dessa linguagem:

- Acredito que um poema seja um pedido de verticalização e pausa na linha horizontal de tanta produção sem pausa.

A entrevista foi concedida por e-mail.

NA APRESENTAÇÃO DO LIVRO, DIEGO GRANDO APONTA QUE SEUS POEMAS SÃO MAIS PERCEPTIVOS DO QUE NARRATIVOS, O QUE SURPREENDE EM SE TRATANDO DE UM AUTOR DE PROSA. A POESIA TE DEU ALGO QUE NÃO ENCONTRAVAS EM CONTOS E ROMANCES?

A literatura se apresentou para mim ora por alguma poesia que vinha mimeografada ou ditada, ora pelos poemas de livros didáticos que a escola pública nos destinava por um ano. Sempre li e escrevi poesia, interessando uma função meio que de batismo. Se a lírica acrescenta algo a quem escreve, logicamente minha prosa aprende com isso, assim: dizer mais com menos, por exemplo. Creio que a potencialização da linguagem (no sentido matemático do termo) é vital, ainda mais nos tempos efêmeros em que vivemos. Mas sobretudo a poesia me dá um quê de imediato, à medida que o retorno pode vir após a leitura de um único poema. 

Entretanto há coisas que só podem ser ditas num conto, outras, num romance, outras, numa peça de teatro. Creio no romance como o gênero das relações humanas por excelência. O romance é uma maquete do mundo. No conto, a arte de narrar por vezes se sobrepõe a personagens. Já na poesia contamos com outro poeta que nos vai ler (acho que isso aí é de Armindo Trevisan). Há, portanto, cumplicidade, já que os chatos que entortam o nariz para a linguagem nem abrem livro de poesia. No fundo, os poemas que escrevo me surpreendem se mostram capacidades de expressão que eu não julgava alcançar. Daí um motivo de escrevê-los: os poemas ensinam que minha escrita é menos burra que eu.

O QUE TE LEVOU A CRIAR EM LINGUAGENS DISTINTAS NOS ÚLTIMOS ANOS?

Amor à arte. Vivi a infância numa casa onde isso era coisa de outro mundo. Foram as escolas (todas elas públicas) que me ofereceram algo da cultura. Sempre desenhei (trabalhei como chargista), atuei desde a adolescência, estudei violino, pintura, trabalhei em barracão de escola de samba construindo alegorias. Aprender me deixa vivo. Costumo dizer que sou um estudante profissional. Tenho vergonha de ser burro e por isso o que não sei me intima. Meu rosto está no que ainda não conheço. Assim, parece natural que essa vontade de aprender esteja nas coisas que escrevo e pesquiso. 

Na PUCRS, abordo com meu grupo de estudos as possibilidades de intersemiose criativa: o que um campo sígnico pode suscitar em outro. Por exemplo: desde maio de 2020, publico um poema semanal no jornal Nova Folha, de Guaíba, cujo editor é o fotógrafo Valmir Michelon. Nunca imaginei que escreveria tanto em períodos tão curtos. O Valmir me manda uma foto (às vezes é outro fotógrafo parceiro, como Louis Scur Carrard), e faço dois movimentos: o primeiro é pura tautologia (dar conta de ver o que a imagem tem); o segundo é dar vazão ao que a escrita comunica. Da imagem (do que ela grita ou esconde) saem esses poemas.

O LIVRO ABARCA DIVERSOS TEMAS, ENTRE OS QUAIS O LUGAR DO SUJEITO NO MUNDO E A PRECARIEDADE DE CERTAS RELAÇÕES SOCIAIS, INCLUSIVE DE TRABALHO. COMO É ABORDAR QUESTÕES IMPORTANTES NO DEBATE PÚBLICO PELA VIA POÉTICA?

Acredito que escrever e ler poesia (qualquer poesia) é um ato de resistência nestes tempos de internet em que julgamos que estamos livres porque podemos escolher e inevitavelmente escolhemos o que já foi escolhido antes. Nesse sentido, a poesia é um embate contra o utilitário, contra o tradutor automático do Google: escrevemos, em linguagem torta, inutilidades que entretanto são a marca do humano. Rasuramos paradigmas e fazemos travas dialéticas justamente porque a dialética parece dissolvida neste mundo em que os efeitos especiais insistem em propor verdades obscenas nos telejornais e no cinema. 

Daí o porquê de o teatro resistir, ao meu ver como arte superior, porque aponta para a máscara e diz: somos atores num palco e isso aqui é só linguagem. (Estou confessando isso para um cinéfilo!) Acredito que um poema seja um pedido de verticalização e pausa na linha horizontal de tanta produção sem pausa. Se a escritura se deseja molotov, o poema tem que dizer com ponta de agulha aquilo para que despenderíamos muito texto. 

Por isso gosto da poesia engajada. Gosto de discutir trabalho, gosto de fazer mofar as ideias de progresso que são progresso só para alguns. Gosto da natureza. O que sinto mesmo é que a linguagem poética deva ser o passo ao lado, de onde se pode ver criticamente o rio-que-corre sempre faminto por novidade, sempre contemporâneo e doente, e exercer nossa dignidade - por exemplo: a língua. Escrever poesia é dar uma volta pela quadra, soprando um pouco desse português que cura, ainda mais quando somos afogados full time pelo cash flow das informações. Logo, a poesia é um dever de escritor. A poesia pode ser um não. A poesia pode, sim, fazer o nosso mea culpa. Quando escrevo, faço o meu.

DANIEL FEIX