sábado, 8 de maio de 2021


08 DE MAIO DE 2021
ENTREVISTA

A POESIA É UM DEVER DE ESCRITOR

Altair Martins

Escritor, autor de "Labirinto com Linha de Pesca"

Reconhecido pela prosa, Altair Martins estreia na poesia com Labirinto com Linha de Pesca. O livro dá sequência a um processo de ampliação da atuação do autor, que tem 46 anos e recentemente escreveu as peças de teatro Guerra de Urina (2018) e Hospital-Bazar (2019), atuou no espetáculo Tango para Homens Velhos (2020) e participou da mostra de artes visuais O que Vemos, o que nos Fala (2019). Professor na PUCRS, autor de livros como o premiado A Parede no Escuro (2009), ele revela a seguir o que o levou à linguagem poética. E comenta a persistência dessa linguagem:

- Acredito que um poema seja um pedido de verticalização e pausa na linha horizontal de tanta produção sem pausa.

A entrevista foi concedida por e-mail.

NA APRESENTAÇÃO DO LIVRO, DIEGO GRANDO APONTA QUE SEUS POEMAS SÃO MAIS PERCEPTIVOS DO QUE NARRATIVOS, O QUE SURPREENDE EM SE TRATANDO DE UM AUTOR DE PROSA. A POESIA TE DEU ALGO QUE NÃO ENCONTRAVAS EM CONTOS E ROMANCES?

A literatura se apresentou para mim ora por alguma poesia que vinha mimeografada ou ditada, ora pelos poemas de livros didáticos que a escola pública nos destinava por um ano. Sempre li e escrevi poesia, interessando uma função meio que de batismo. Se a lírica acrescenta algo a quem escreve, logicamente minha prosa aprende com isso, assim: dizer mais com menos, por exemplo. Creio que a potencialização da linguagem (no sentido matemático do termo) é vital, ainda mais nos tempos efêmeros em que vivemos. Mas sobretudo a poesia me dá um quê de imediato, à medida que o retorno pode vir após a leitura de um único poema. 

Entretanto há coisas que só podem ser ditas num conto, outras, num romance, outras, numa peça de teatro. Creio no romance como o gênero das relações humanas por excelência. O romance é uma maquete do mundo. No conto, a arte de narrar por vezes se sobrepõe a personagens. Já na poesia contamos com outro poeta que nos vai ler (acho que isso aí é de Armindo Trevisan). Há, portanto, cumplicidade, já que os chatos que entortam o nariz para a linguagem nem abrem livro de poesia. No fundo, os poemas que escrevo me surpreendem se mostram capacidades de expressão que eu não julgava alcançar. Daí um motivo de escrevê-los: os poemas ensinam que minha escrita é menos burra que eu.

O QUE TE LEVOU A CRIAR EM LINGUAGENS DISTINTAS NOS ÚLTIMOS ANOS?

Amor à arte. Vivi a infância numa casa onde isso era coisa de outro mundo. Foram as escolas (todas elas públicas) que me ofereceram algo da cultura. Sempre desenhei (trabalhei como chargista), atuei desde a adolescência, estudei violino, pintura, trabalhei em barracão de escola de samba construindo alegorias. Aprender me deixa vivo. Costumo dizer que sou um estudante profissional. Tenho vergonha de ser burro e por isso o que não sei me intima. Meu rosto está no que ainda não conheço. Assim, parece natural que essa vontade de aprender esteja nas coisas que escrevo e pesquiso. 

Na PUCRS, abordo com meu grupo de estudos as possibilidades de intersemiose criativa: o que um campo sígnico pode suscitar em outro. Por exemplo: desde maio de 2020, publico um poema semanal no jornal Nova Folha, de Guaíba, cujo editor é o fotógrafo Valmir Michelon. Nunca imaginei que escreveria tanto em períodos tão curtos. O Valmir me manda uma foto (às vezes é outro fotógrafo parceiro, como Louis Scur Carrard), e faço dois movimentos: o primeiro é pura tautologia (dar conta de ver o que a imagem tem); o segundo é dar vazão ao que a escrita comunica. Da imagem (do que ela grita ou esconde) saem esses poemas.

O LIVRO ABARCA DIVERSOS TEMAS, ENTRE OS QUAIS O LUGAR DO SUJEITO NO MUNDO E A PRECARIEDADE DE CERTAS RELAÇÕES SOCIAIS, INCLUSIVE DE TRABALHO. COMO É ABORDAR QUESTÕES IMPORTANTES NO DEBATE PÚBLICO PELA VIA POÉTICA?

Acredito que escrever e ler poesia (qualquer poesia) é um ato de resistência nestes tempos de internet em que julgamos que estamos livres porque podemos escolher e inevitavelmente escolhemos o que já foi escolhido antes. Nesse sentido, a poesia é um embate contra o utilitário, contra o tradutor automático do Google: escrevemos, em linguagem torta, inutilidades que entretanto são a marca do humano. Rasuramos paradigmas e fazemos travas dialéticas justamente porque a dialética parece dissolvida neste mundo em que os efeitos especiais insistem em propor verdades obscenas nos telejornais e no cinema. 

Daí o porquê de o teatro resistir, ao meu ver como arte superior, porque aponta para a máscara e diz: somos atores num palco e isso aqui é só linguagem. (Estou confessando isso para um cinéfilo!) Acredito que um poema seja um pedido de verticalização e pausa na linha horizontal de tanta produção sem pausa. Se a escritura se deseja molotov, o poema tem que dizer com ponta de agulha aquilo para que despenderíamos muito texto. 

Por isso gosto da poesia engajada. Gosto de discutir trabalho, gosto de fazer mofar as ideias de progresso que são progresso só para alguns. Gosto da natureza. O que sinto mesmo é que a linguagem poética deva ser o passo ao lado, de onde se pode ver criticamente o rio-que-corre sempre faminto por novidade, sempre contemporâneo e doente, e exercer nossa dignidade - por exemplo: a língua. Escrever poesia é dar uma volta pela quadra, soprando um pouco desse português que cura, ainda mais quando somos afogados full time pelo cash flow das informações. Logo, a poesia é um dever de escritor. A poesia pode ser um não. A poesia pode, sim, fazer o nosso mea culpa. Quando escrevo, faço o meu.

DANIEL FEIX

08 DE MAIO DE 2021
FRANCISCO MARSHALL

OS SETE SÁBIOS

Os brasileiros, como os antigos, perseguem a sabedoria; nós, para exterminá-la, em favor da ignorância, ora garantida no poder; eles, para obtê-la e fazer do saber o farol que ilumina as ideias e a vida prática. Desse amor à sabedoria surgiu a lista dos sete sábios (hoi hepta sophoi), enunciada pela primeira vez por Platão (428-347 a.C.), no diálogo Protágoras. Esta e todas as listas posteriores foram encabeçadas pelo filósofo Tales de Mileto (624-546 a.C.), com legisladores do século VI a.C., época em que as cidades da Grécia tentavam superar a penúria e a violência da guerra civil. Para avançar, era preciso conciliar uma sociedade dividida. Hoje, queremos sabedoria para sair da crise, ou seguiremos arrastados pelo ódio dos ignorantes?

Ao longo dos séculos, a nominata variou, mas nela sempre constaram Sólon de Atenas (638-568 a.C.), um dos pais da democracia, e líderes modernizadores da sociedade. Os sábios eram aristocratas que souberam interpretar seu mundo e ceder parcelas de poder e privilégios para o povo, ora em desenvolvimento. Com suas novas leis e políticas, estruturou-se na pólis uma esfera pública agradável e produtiva, em locais de convívio, diálogo e cooperação (ágora, fontes, templos, festivais, assembleias e tribunais), ao passo em que se instituiu nova ordem política, para incluir mais cidadãos. As póleis encontraram a unidade visada e prosperaram por 150 anos, entre os séculos VI e V a.C, chegando a um dos apogeus da história da civilização, a era clássica em Atenas. Consagrou-se a liderança de sábios abrindo caminhos para o equilíbrio social (isonomia), juntamente com a soberania popular, alma da democracia. Ademais, aqueles gregos repeliram o exército persa, entre 490 e 479 a.C., dominaram a economia do Mediterrâneo com seus vinhos, óleos, naves e vasos excelentes, e produziram o legado de arte, filosofia e política que nos nutre há milênios. Tudo fruto da sabedoria que leva à democracia, e de ciências que melhoram o destino.

Ouçamos um pouco de Sólon, traduzido no livro Sólon de Atenas, a cidadania antiga, de Gilda N. M. de Barros (1999); suas reformas incluíram a repatriação dos cidadãos vendidos devido à escravidão por dívidas, ambas então abolidas. Sólon tinha asco dos arrogantes que em jantares conspiram contra o povo: "Pois não sabem conter a insolência/ nem moderar na paz do banquete as alegrias do momento./ (?) Mas enriquecem persuadidos por ações injustas", diz, no poema da Eunomia (boa norma). Abominava também a alienação dos que nem sequer curtem ou compartilham postagem: "Assim, o Mal Público chega para cada um em sua casa/ e já os portões do pátio não podem detê-lo,/ mas de um salto ultrapassa o muro elevado e sempre encontra/ mesmo aquele que, fugindo, estiver no recôndito do quarto". Só há democracia com plena participação.

Eia! É hora de sabedoria, democracia e ação, para nos livrarmos de exército invasor, de rapineiros, de zumbis usurpa-cores e da chaga letal da ignorância que ora nos atormenta. À luta, pela liberdade e pela vida!

FRANCISCO MARSHALL

08 DE MAIO DE 2021
CRISTINA BONORINO

CARTAS

Escreve D. Fulana (representando aqui diferentes mensagens): "Cara Dra. Cris, leio sempre sua coluna; me vacinei, fiz o teste de anticorpo neutralizante e deu positivo? negativo? - isso varia. Isso quer dizer alguma coisa?". Cara Fulana, nenhum dos testes oferecidos atualmente medem a proteção gerada pela vacina. Não foi determinado ainda o que chamamos "correlato de proteção" para as vacinas contra a covid-19. Isso vai demorar alguns anos para estabelecer com clareza.

Nos EUA, onde as vacinas são da mesma plataforma, vai ser mais simples. Aqui, cada vacina é diferente, e não serão os mesmos correlatos. Cada teste atual mede coisas distintas. Se positivo, não se sabe se é suficiente ou quanto dura. Parafraseando a consultora Keila Mallman, personagem da genial Ilana Kaplan: "Quer fazer o teste da IgG? Faz... Vai te dizer algo concreto? Não. Não vai te dizer nada". Sugestão do meu amigo Martin Bonamino, cientista do Instituto Nacional do Câncer (Inca): se você pode dispor do valor do teste, compre uma cesta básica e doe para alguém que precisa muito - e que provavelmente não está vacinado.

Um segundo caos foi criado dentro do caos que já vivíamos na pandemia. Para as pessoas que têm acesso às poucas vacinas disponíveis no Brasil, a ausência de uma fonte informações seguras - que deveria ser o Ministério da Saúde - serviu não apenas para desinformar sobre medição de anticorpos neutralizantes, mas também criou dúvidas sobre vacinas, culminando na normalização da falta de segunda dose. Quem hesita em se vacinar por receio de supostos eventos adversos numa proporção de um ou dois casos por 1 milhão de vacinas, por que nunca hesitou com uso de anticoncepcionais, que geram problemas circulatórios em uma a cada 200 mulheres? Ou mesmo heparina, que causa tromboses em um a cada 500 ou 1 mil tratados?

Finalmente, é criminosa a orientação de vacinar ao máximo com a primeira dose sem viabilizar a segunda, que é o que efetivamente concretiza a proteção evidenciada por estudos clínicos. Quem apregoa que está "tudo bem" em atrasar a segunda dose ou está mal informado ou mal intencionado, ou ambos. A eficácia de cada vacina é baseada no intervalo usado no ensaio clínico fase III. Fora disso, é achômetro, aliás muito usado no Brasil para gerenciar a pandemia. Outra carta: "Dra Cris, o Ministério quer estender para 12 semanas o intervalo entre doses da vacina Pfizer". Vacina que é 95% eficaz se a segunda dose é dada após três semanas. Quer estender? Estende. Vai funcionar? Não. Não vai funcionar.

CRISTINA BONORINO

08 DE MAIO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

A PANDEMIA E A FOME

Deu no que deu: mais de 400 mil brasileiros mortos e colapso do sistema de saúde.

Desde que surgiram os primeiros casos no Brasil, infectologistas, epidemiologistas e muitos especialistas ligados à academia advertiram a sociedade de que o caminho seguido pelo governo federal nos levaria ao colapso do sistema de saúde e causaria uma tragédia sem precedentes.

Infelizmente, nossas previsões mais pessimistas se confirmaram: o número de mortes bateu recordes mundiais e UTIs ainda estão superlotadas. Pela primeira vez, começamos uma campanha de vacinação sem vacinas em número suficiente.

Não há perspectiva de melhora a curto prazo, o mês de maio ainda nos reserva muitas tristezas. Colapso do sistema de saúde significa viver num país sem hospitais para ricos ou pobres (claro que pior para estes), tenham covid ou outra doença.

O Brasil estava fadado a ser um dos principais epicentros da pandemia. Um vírus que se transmite pelas gotículas que expelimos ao falar, cantar, tossir ou espirrar exige afastamento social para ser contido. Mesmo que tivéssemos agido de acordo com as melhores recomendações da Organização Mundial da Saúde e os exemplos dos países que conseguiram controlar a pandemia, seria muito difícil manter em casa os 50 milhões de brasileiros pobres que vivem nas periferias das nossas cidades, cerca de 10 milhões dos quais preenchem os critérios para a classificação de pobreza extrema.

Num dos países mais desiguais do mundo, essas pessoas dependem do trabalho informal diário para alimentar a família. Com a debacle econômica dos últimos anos agravada pela pandemia, a única possibilidade de sobrevivência foi o auxílio emergencial. A ajuda de R$ 600 por mês garantiu pelo menos a alimentação básica de milhões de pessoas.

O fim do auxílio em dezembro passado e a atual retomada na faixa de R$ 200 provocaram o retorno da fome epidêmica em nosso país, flagelo do qual custamos a nos libertar nas últimas décadas do século 20. Os mais velhos devem se lembrar das campanhas contra a fome lideradas por Betinho, nos anos 1980.

Os relatos que tenho ouvido de lideranças comunitárias insuspeitas são de assustar. Não será possível convivermos com a fome que se espalha nos cinturões periféricos das cidades, como fizemos em séculos anteriores com as crianças desnutridas e com os retirantes que morriam nas estradas do Nordeste para fugir das secas.

Dizer que o presidente da República foi o grande responsável pela disseminação do coronavírus, promovendo aglomerações sem usar máscara, não resolverá a emergência atual. Deixemos que a Justiça criminal se encarregue de julgá-lo. O momento é de agir.

É fundamental que a sociedade distribua cestas básicas e ajuda financeira aos mais necessitados. Num país de dimensões continentais, com tantos entraves burocráticos, não é tarefa corriqueira catalogá-los, mas, se houver organização e transparência na aplicação dos recursos, as empresas e a população brasileira não se furtarão a esse dever.

DRAUZIO VARELLA

08 DE MAIO DE 2021
MONJA COEN

MAMÃE

"Minha filha pequenina

Hoje é maior do que eu.

Como a plantinha franzina,

Que do meu amor nasceu,

Minha filha pequenina

Hoje é maior do que eu."

Minha mãe morreu, faz algum tempo. Deixou esse poema acima para mim, na puberdade. Era dinâmica, forte, decidida. Adorava estudar, filosofar. Foi envelhecendo, aquietando, silenciando.

Pude acompanhar seus últimos anos. Assisti-la na velhice, como eu me comprometera na infância. Certo dia, com surpresa, a vi engolir um caroço de azeitona. Ela me parecia tão bem, comia na mesa com todos. Alguns meses depois, não consegui ampará-la de volta à cama, depois do banheiro, deixando-a deitada no carpete enquanto fui buscar ajuda na vizinhança. Acompanhei ela ir se calando e responder monossilábica "é", "é", "é". Depois, nem isso.

Uma dentista veio em casa arrancar os últimos dentes. As amigas, as alunas de declamação, as primas e sobrinhas já não mais visitavam dizendo: "Ela não está mais aí". Ela estava, sim. Sem falar, sem responder, mas estava.

Meu pai vinha. Morava com sua segunda esposa a alguns quarteirões. No início dizia para ela ler o jornal, ver TV. Quando ainda respondia, ela dizia: "É tudo igual".

O que sentiria minha mãe, além da dor, que a fazia soltar gritos ao trocar as roupas, as fraldas? Artrose na junção da cabeça do fêmur. Havia operado de um lado e quase morrera. Nada de outra cirurgia.

Mamãe viveu 96 anos. Saudades.

Eu me deitava na cama, ao seu lado, e a observava. Conversava, mesmo sem respostas nos últimos meses, semanas. Rezava as rezas que ela gostava e as minhas preces budistas. Fazia o arrependimento de todo carma prejudicial.

Às vezes ela me parecia um lama tibetano. Por quê? Não sei.

Parou de comer, parou de beber. O médico desistiu do soro, que já não entrava, as veias tão finas e frágeis. Viveu assim cerca de 15 dias. "No hospital, teria morrido em cinco dias", uma médica me falou. Um senhor espírita comentou: "Ela está fechando todos os chacras conscientemente. Isso é raro e é bom".

Morreu em casa, como sempre me pedira. Sem ser entubada.

A vida é um período em si mesma. A morte é um período em si mesma.

Mamãe estava sentada próxima da janela. Sua mão - aquela mão que me ensinou a escrever meu nome como um trenzinho, na mesa da copa, a mesma mão que gesticulava ao declamar poesias lindas e fortes, a mão que me acariciava e uma vez me deu uma sova, essa mesma mão, agora marcada pela artrose, estava lá, solta, largada.

Médicos, óbitos, funerária, caixão, enterro, preces. Mamãe morreu.

Entrei no seu quarto vazio, ao voltar do cemitério e a ouvi falar dentro de mim: "Há uma coisa sua no meu armário, pegue". Abri e encontrei um rosário budista branco. Nunca mais falou comigo.

Obrigada, mamãe, por ser quem foi e me fazer quem sou.

Mãos em prece

MONJA COEN

08 DE MAIO DE 2021
J.J. CAMARGO

SENHORES JURADOS, TOMEM CUIDADO

Como toda crise se encarrega de expor o que temos de melhor e de pior, é impressionante o tamanho da legião de híbridos que reúnem num único exemplar promotor e juiz, desprovidos naturalmente de qualquer resíduo de empatia ou generosidade.

Quem se der ao trabalho de passear pelas redes sociais (um passeio temerário pelo risco de contaminação!) ficará impactado pela incapacidade de dar chance ao contraditório e revelar um mínimo de tolerância.

Na formatação de um simpósio sobre liberdade de opinião como critério de diferenciação social, coube-me eleger situações que revelassem o quanto podemos estar enganados com o juízo açodado. Uma dessas estórias viralizou nas redes sociais, como a mostrar que no mesmo universo há veneno e antídoto.

Uma velhinha, na preparação para uma viagem de trem, comprou um pacote de bolachas com recheio de chocolate, daquelas que nunca podia comer em casa, sob a vigilância implacável da filha, uma animada voluntária da guerrilha antidiabetes. Enquanto esperava o trem, acomodou-se na extremidade de um banco de pedra na plataforma, ocupado na outra ponta por um jovem cabeludo que cantarolava uma música que chegava pelo fone de ouvido. Apesar do espaço entre eles ser pequeno, não se animou a encará-lo, até que foi despertada pelo som inconfundível de um pacote sendo manipulado. Não acreditou quando percebeu que o cara de pau estava comendo uma das suas bolachas.

Depois de uma encarada feroz, enfiou a mão no pacote e apanhou uma bolacha, sem desviar o olho, como a mostrar que estava demarcando seu território. Mais furiosa ficou quando o descarado sorriu. E então iniciou-se o que parecia uma disputa de poderes. A cada bolacha que ele mastigava debochado, ela retribuía em fúria crescente. Até que chegaram à última bolacha, quando ele se excedeu: partiu-a ao meio e ofereceu-lhe a outra metade.

Quando finalmente o trem chegou, ela carregou bolsa e fúria até a escada de acesso e sentou-se no primeiro banco disponível. Uma rápida olhada pela janela completou o estoque de ódio, pois o cretino continuava acompanhando com a cabeça o ritmo de sua música estúpida, com o mesmo sorrisinho idiota. Quando o cobrador pediu-lhe passagem, ela abriu a bolsa e teve um choque: o seu pacote de bolachas estava lá, intacto. O trem já arrancava, não havia tempo para desculpas, e sem olhar para trás agradeceu que a celeridade da locomotiva arrastasse para longe a vergonha do julgamento precipitado.

Outra estória em um cenário parecido: em um domingo ensolarado do outono de Nova York, o metrô deslizava silencioso, até que os ocupantes daquele vagão tiveram o sossego interrompido pela entrada de um homem com seus quatro filhos, com idade presumida entre sete e 11 anos, e com eles uma balbúrdia inesperada. O pai sentou-se ao lado de uma senhora e pareceu cochilar enquanto os moleques infernizavam a vida dos passageiros, correndo, gritando, interrompendo os que queriam ler e despertando os sonolentos.

Quando a arruaça chegou ao máximo, a senhora tocou o pai com o cotovelo e descarregou sua irritação: "O senhor não acha que já é hora de educar os seus rebentos? Ninguém os suporta mais!". O pobre homem, despertado pelo comentário agressivo, concordou: "Desculpe, estou sem dormir desde ontem, mas acho que a senhora tem razão. Só lhe peço que seja tolerante com meus meninos porque eles perderam a mãe há duas horas, e nem eu, nem eles, estamos sabendo como lidar com isso".

A pressa em julgamento, de qualquer tipo e sobre qualquer atitude, é uma temeridade, com alto risco de injustiça, sempre punida pelo constrangimento do afobado!

E provavelmente todos sentiríamos mais vergonha do que desagravo se soubéssemos o que o outro pensava ou sofria, quando disse ou fez o que fez ou disse.

J.J. CAMARGO

CAMISA 1

Eram do Pão dos Pobres, e resolveram montar um time de futebol. Jogo tinham. Um era o Aírton Pavilhão da bola de meia, outro o cerebral Larry do terreno baldio. Faltava, sim, arrumar o dinheiro do fardamento, das botinas, da bola de couro. Para time de vila isso é sempre difícil, e mais difícil ficava em 1963.

Que jeito? Saíram a vender garrafa e jornal velho e a espremer limonada e a engraxar sapato. Deu. Encomendaram o uniforme. Uma beleza. Listradinho. Pena ninguém ter máquina para bater a foto. O time até parecia que jogava melhor, corria mais, que se entendia mais assim, todo mundo igualzinho. O campinho era ali no Pão dos Pobres mesmo, de chão batido, de goleira de sarrafo. Campinho glorioso, de onde saíra Salvador, aquele centromédio do Inter dos anos 1950.

Bom. Uma manhã de inverno, domingo, fazia um frio bárbaro. O tal de renguear cusco. O minuano uivava lá para os lados do rio. Entortava as paineiras. Fazia levantar as golas. E tinha jogo no campinho. Jogo brabeza, jogo duro. De campeonato.

Meia hora antes, estava todo mundo lá - o adversário olhando feio, o pessoal do time saltitando de braços cruzados. Faltava só o goleiro. Onde andava? Ele era fome, não perdia nem jogo de três dentro três fora. Não ia pipocar justo naquela partidona.

O tempo ia passando, já estava na hora do jogo, o juiz consultando o cebolão dele, cismado, e nada do goleiro. Cadê o desgranido? Reserva, reserva, não havia, mas um beque lá até atacava no gol, quando tinha que atacar. O negócio era botar o becão debaixo dos paus mesmo. Mas, e a camiseta? O goleiro morava pertinho, ali na Baronesa, era só buscar a camiseta, e pronto. Resolvido. Quem vai? Quem vai?

Decidiram ir todos. Combinaram com o juiz, com os adversários, e saíram, o time inteiro. Foram correndinho até a Baronesa. Cada vez mais frio, cada vez mais frio. Chegaram lá azoando no paralelepípedo das ruazinhas, a trote, puf, puf, xingando cachorro, chutando lata, rindo, rindo, chamando o goleiro de sacana. Pararam diante da casa dele. Uma casinha. Casebre. De madeira. Até meio torta para um lado.

Estava fechada. Bateram.

Nada.

Bateram de novo. Esperavam. Lá de dentro vieram uns passos fraquinhos e uma tosse comprida. A porta se abriu devagar. O escuro da casinha foi iluminado pela luz cinza do inverno de Porto Alegre. Sob o vão da porta surgiu uma mulher, uma senhora, toda encolhida, coitadinha, meio que gemendo de frio, o nariz fungando, os olhos vermelhos, a mão esquerda na maçaneta e a direita apertando o braço esquerdo. Fitou-os com seus olhos tristes de vira-lata pidão. Ciciou um bom-dia entre os dentes. Perguntou o que queriam. Ninguém respondeu. Olhavam para ela, mudos, de boca aberta. Ficaram assim alguns segundos, até que o centroavante atinou em gaguejar:

- Desculpa. Foi engano.

Foram embora cabisbaixos. Era a mãe do goleiro. Ela e sua sainha rota, seus chinelos de dedo. Ela e a camisa número 1 do time, camisa de bom tecido e mangas compridas. Quentinha, decerto. Bem quentinha. E preta, como toda camisa de goleiro tinha de ser, nos anos 1960.

Naquele dia, o goleiro reserva do time do Pão dos Pobres jogou com uma camiseta vulgar, de manga curta e o 1 das costas riscado a carvão. Tudo bem, sem problemas. Sem problemas.

Esta coluna foi originalmente publicada em 15 de abril de 2000

DAVID COIMBRA 

08 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

FÔLEGO NA INDÚSTRIA

A indústria é o setor que, ao longo da última década, vem sofrendo mais. Primeiro com a lenta desaceleração da economia, ao mesmo tempo que era castigada por uma forte concorrência dos importados, e depois com a recessão e a letárgica recuperação da atividade no país. Não deixa de ser uma boa notícia, portanto, o fato de as fábricas serem as responsáveis pela metade do saldo positivo de 75,4 mil vagas formais de trabalho criadas no primeiro trimestre do ano no Rio Grande do Sul, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Claro que há fatores sazonais a serem considerados, mas o mais importante é a sinalização de que o setor encontrou um piso de atividade e, agora, há uma tendência de reação - mesmo que lenta e às vezes errática - iniciada a partir do final do ano passado. Não se deve esperar para logo uma geração de postos de trabalho com carteira assinada no mesmo ritmo dos três primeiros meses do ano, avisa a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), mas as projeções seguem sendo de mais admissões do que demissões. Diante da dura realidade de altíssimo desemprego no país, é um sinal positivo, uma vez que o Estado tem um dos principais polos manufatureiros do Brasil e o segmento costuma ter salários em média mais altos, além de um grau maior de formalidade.

A mais recente sondagem da Fiergs confirma o viés para cima. O índice de produção de março - mês com o maior número de restrições a atividades no Estado - ficou em 56,8 pontos, acima de fevereiro e da média histórica do período, de 52,8 pontos. A utilização da capacidade instalada, outro indicador importante, chegou a 76%, enquanto a média para o terceiro mês do ano é de 70,7%. Bons resultados, é preciso ressaltar, a despeito do período recheado de adversidades.

Mesmo assim, dificuldades não faltam. Uma delas é o aumento do custo das matérias-primas, decorrente da desorganização da cadeia global de fornecedores, consequência da pandemia, mas também da disparada dos preços das matérias-primas. Há outros entraves, como a própria situação de dificuldade da Argentina, principal cliente das fábricas gaúchas. A recuperação também não é igual para todos os subsetores.

Mas há sinais que dão esperança de um novo ímpeto, a médio prazo, quando o país e o mundo vencerem a pandemia. Quanto ao mercado interno, é essencial avançar na vacinação, para que os demais segmentos, como comércio e serviços, possam voltar a algo mais próximo do normal em termos de nível de atividade, disseminando benefícios e aumentando a renda da população. Significará maior demanda para as indústrias. Ao mesmo tempo, espera-se que o Congresso e o governo federal encontrem consensos para avançar com a reforma tributária. São passos essenciais para que este novo impulso possa ser sustentável e vigoroso, contribuindo para o crescimento da economia do Rio Grande do Sul.


08 DE MAIO DE 2021
MARCELO RECH

Os que falam demais

Com seu doutorado em Chicago, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode dominar as ciências econômicas, mas sua verborragia incontrolável seria reprovada em um cursinho pré-vestibular de comunicação. Na voz de um czar da economia, uma frase mal colocada tem o condão de alterar os rumos do mercado, e Guedes não só fala sem script, pausa para reflexão e respiração: ele inventa analogias ruinosas para tentar vender seu peixe e acaba entregando um produto estragado.

Muitas das bobagens de Guedes teriam sido evitadas se ele soubesse que o sentido da comunicação não é o que se quer dizer, e sim o que se compreende da mensagem. A desastrosa fala sobre empregadas domésticas viajarem à Disney, por exemplo, poderia ter sido substituída pela menção de que, no passado, o real superapreciado tornava de fato mais barato passar férias na Flórida do que no Nordeste, com evidentes prejuízos para a economia brasileira. Ou o mais recente tropeço, sobre filhos de porteiros com nota zerada ingressarem em faculdades mediante o Fies, poderia ter alguma serventia se ele colocasse o dedo direto na ferida, sem referências demofóbicas. É verdade que alguns donos de faculdades ganharam mesmo muito dinheiro abrindo e inchando cursos com baixo nível de exigência porque o governo garantia as mensalidades em dia, mas ninguém assimilou o que o ministro pretendia criticar.

Ministros da Economia e presidentes de Banco Central deveriam ser modorrentos, parcimoniosos e econômicos não só nas despesas, mas principalmente nas palavras. Pedro Malan passou oito anos no Ministério da Fazenda, e enquanto corcoveava no lombo das crises, transmitia sonolência e tranquilidade ao país. E Henrique Meirelles, no Banco Central e na Fazenda, se notabilizou como um bem-vindo soporífero sempre que havia um sobressalto nas finanças. Já Guedes parece encantado com sua própria voz e descarrega a arma contra o próprio pé quando diz coisas como, se fizesse muita besteira, o dólar chegaria a cinco reais.

Ainda que involuntariamente, Guedes emula seu chefe, Jair Bolsonaro, que se vale de disparates para incendiar a audiência e provocar tanto indignação quanto apoios apaixonados. Lula, Dilma e Bolsonaro falam muito e de improviso, o que é uma porta aberta a sandices, gafes e analogias pobres.

O problema é que, na economia, não há margem para manifestações estapafúrdias.

Aliás, é como age o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, calejado pelo comportamento obsequioso dos banqueiros que sabem que a discrição, como o silêncio, vale literalmente ouro.

MARCELO RECH

O abismo

Entre tantos outros ensinamentos, a pandemia mostra que reduzir as desigualdades nunca foi tão necessário, no Brasil e no mundo. O debate esbarra em um preconceito antigo, moldado no sequestro do tema por correntes ideológicas. Diminuir as barreiras sociais entre camadas da população não é bandeira de esquerda, de direita ou de centro. 

É uma imposição humana e econômica que se justifica por qualquer viés de avaliação. Basta olhar para as economias e para as democracias mais desenvolvidas, nas quais inexiste esse vergonhoso abismo entre os mais ricos e os mais pobres. Incluir pessoas no mercado de consumo, dar a elas oportunidades e dignidade é a mais efetiva ferramenta de desenvolvimento econômico e humano, dimensões que só fazem sentido se caminharem juntas.

A receita é fácil, mas não é simples. Começa pelo investimento em educação e passa pela reforma do Estado. Investir em educação não é apenas alocar verbas. É ter clareza do porquê e do como, com definições de novos modelos pedagógicos, alinhados com as necessidades de um novo mundo. Reformar o Estado significa descentralizar recursos, decisões, cortar e mudar estruturas ineficientes. Mas seria necessário contrariar poderosos interesses de curto prazo.

A desigualdade dificulta o estabelecimento de políticas públicas. As políticas públicas dificultam o combate à desigualdade. Interromper esse looping é um dos nossos grandes desafios.


08 DE MAIO DE 2021
JR.GUZZO*

Inflação volta a dar as caras

Os juros voltaram a subir. Em março, após um longo período de taxas reduzidas a níveis mínimos, houve um primeiro aumento – já uma pancada de 0,75 ponto percentual de uma vez, levando a taxa de 2% para 2,75% ao ano. Agora o Banco Central dá um segundo aumento consecutivo: outros 0,75 pp, o que coloca os juros brasileiros a 3,50% anuais.

É um sinal claro de que a inflação voltou a roncar.

Os preços, que pouco se mexeram nos últimos dois anos – apesar de surtos localizados neste ou naquele produto – estão de novo numa curva que aponta para cima, e o governo decidiu ir adotando, desde já, o aperto financeiro como resposta à subida dos índices inflacionários.

O Brasil tem uma história de horrores com a inflação – tão ruim, na verdade, que ninguém é mais capaz de apontar com certeza qual foi o momento pior.

É compreensível, assim, que as autoridades econômicas fiquem inquietas quando veem os preços darem sinais de aumento constante – mesmo nos modestos patamares de agora. Para um país que já teve mais de 80% de inflação num único mês, março de 1990, o equivalente a quase 5.000% ao ano, os números de hoje são nada.

Só que não são nada; podem ser muito. Inflação começa em 1% ao ano – a partir daí, o programa é livre.

De 1% passa-se ao dobro, depois ao triplo, de taxa anual passa-se à taxa mensal, depois à taxa diária e, quando se nota, o bicho está fora de controle, como foi durante as décadas de 1980 e 1990, em seus primeiros anos. Foram tempos de desordem.

Os governos montaram sete “planos econômicos” para combater a inflação, todos eles inúteis. Não havia cartão de crédito. Para comprar dólar era preciso pedir licença ao Santo Padre, o Papa, em três vias. A certa altura, um dos presidentes de passagem pelo Palácio do Planalto achou que era uma boa ideia congelar todo o dinheiro que a população tinha na poupança. Nunca a economia do Brasil passou tão mal.

Hoje quem tem 40 anos de idade, completos, não sabe o que é inflação – ainda era criança quando o Plano Real, em 1994, colocou um fim à hiperinflação da era anterior. Passou a vida tendo cartão de crédito e de débito, aumentos só anuais, ou nem isso, juros baixos no crediário.

Mas para todos os demais a inflação foi um pesadelo real.

É natural que a qualquer sinal de perturbação nos preços as preocupações reapareçam – e façam surgir medidas restritivas e o encarecimento do crédito.

Do jeito que estava – e ainda está – com certeza não dá para ir adiante. Juros de 2% ou 3% ao ano, com a inflação no nível atual, se tornam negativos; qualquer investimento financeiro, ou qualquer poupança, se transforma em prejuízo. A expectativa é de mais um aumento, de novo de 0,75 pp, na próxima reunião do Banco Central para tratar do assunto, em junho. Os dias de dinheiro barato podem estar fazendo a sua despedida.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo - J.R. GUZZO*

sexta-feira, 7 de maio de 2021


07 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

Isso é amor

Desde que a juventude foi inventada, em meados dos anos 50, cada geração tenta ser mais rebelde do que a anterior. No começo, um dos grandes veículos de expressão dessas gerações foi a literatura, com clássicos como On The Road, de Kerouac. Mas isso era no tempo em que os jovens liam.

O cinema, lógico, também teve sua influência. James Dean, Marlon Brando, O Selvagem da Motocicleta, e tal. Mas nada fala mais ao coração do jovem do que o rock. Tanto que lendas como Mick Jagger e Paul McCartney continuam guris, mesmo chegando à fronteira dos 80 anos de idade.

Assim, cada geração do rock tentou ser mais inovadora, mais agressiva e mais surpreendente do que as que a antecederam. Mas nenhuma conseguiu superar a do punk. E nada, no punk, foi igual aos Sex Pistols, nem me venha falar de Ramones. Durante três anos, eles chocaram a Inglaterra e o resto do planeta. Chocaram mesmo, imagine que um deles chegou a aparecer dentro de uma camiseta em que estava inscrita uma suástica.

Os dois grandes caras dos Sex Pistols eram Johnny Rotten, que ganhou o apelido por causa da podridão de seus dentes, e Sid Vicious, o da suástica. Você viu o filme Sid e Nancy? Gary Oldman faz um Sid Vicious perfeito, você nunca diria que, mais tarde, ele interpretaria o melhor Drácula de todos os tempos.

A música que mais gosto dos Pistols é cantada por Sid, Something Else. Você assiste ao clipe dessa música e percebe quem ele era na verdade: um meninão torcendo a boca e se fazendo de revoltado indômito. Chega a ser engraçado. Mas Sid Vicious foi coerente com a imagem que tentava passar: morreu de overdose, em 1979, um ano depois de ser preso e a banda se desfazer.

Johnny Rotten, ao contrário, teimou em continuar vivendo. No ano em que Sid morreu, Rotten se casou. A noiva chamava-se Nora, sua antiga namorada, uma mulher 14 anos mais velha, que tinha uma filha quase da idade dele. Rotten adotou essa filha e jamais se separou da mulher.

Pouco li sobre ele nesse tempo todo, nem sabia por onde andava. Dias atrás, descobri. Johnny Rotten agora consertou os dentes, tem 65 anos de idade e vive em Los Angeles com Nora, que está com 79. Rotten não canta mais. Tudo o que ele faz na vida é cuidar de Nora, que sofre de Alzheimer. Ele se recusa a interná-la numa clínica e se esforça para fornecer a ela uma vida regrada, pacífica e rotineira, como reivindicam os pacientes de Alzheimer.

Por que estou escrevendo sobre Johnny Rotten? Por causa da última resposta que ele deu ao repórter que o entrevistou, no começo deste mês. O jornalista estava surpreso. Como um punkeiro agressivo, brigão e contestador se contentava em levar uma vida tão pacata? Rotten disse que amava cuidar da sua mulher, apesar de todas as dificuldades. E explicou a razão:

- Ela esquece de tudo, ela esquece de todo o resto, menos de mim.

O amor é punk.

DAVID COIMBRA

07 DE MAIO DE 2021
CELSO LOUREIRO CHAVES

Reencontrar o sonho

Quando a vida nos submerge, raramente emergimos no mesmo lugar - isto é o que Mr. Dreamer, docudrama disponível no Now, demonstra. Deixando um sonho num lado da vida e voltando para buscá-lo décadas depois, o panorama é outro, há mais pessoas em torno, outros sonhos a alimentar para que não se percam. Quando se trata de música, então nem se fala. Os sons se multiplicaram e, pandemia ou não pandemia, há muito a descobrir e ouvir, para engatar naquele sonho que se deixou lá trás.

O docudrama de Pedro Sirotsky, Marcelo Ferla e Flavia Moraes é exemplar neste percurso de abandono e descoberta, de recuperação do tempo perdido e de reencontro com uma música que não é mais a mesma, embora a mesma canção do Supertramp continue chamando a memória, bem como fazia naqueles tempos do Transasom da televisão que Pedro deixou para trás, numa troca de rumo de vida.

Nota de rodapé: tive mais a ver com essa história do que parece. Quando Pedro deixou o Transasom, herdei o programa e a carga de responsabilidade de levar adiante um sonho. Na minha vida, é mais do que uma nota de rodapé. Foi um momento formativo que estendi por vários anos e que me deixou uma saudade boa e duradoura.

Boa parte de Mr. Dreamer se passa em Dublin e é quase impensável considerar que tudo o que se vê não esteja ocorrendo naquele momento mesmo. Por que Dublin? Ora, qualquer lugar é lugar para emergir e reencontrar o sonho, agora pelas mãos e vozes de músicos em formação, cheios de opiniões, instrumentos e canções. O docudrama mostra que sempre há música, mesmo que seja em tempos pandêmicos, mesmo que seja em Dublin.

Há vários caminhos que Mr. Dreamer propõe. De mãos dadas com novas gerações de músicos, há chances de andar por outras geografias. A Dublin de James Joyce (e dos novos músicos) é um exemplo potente a ser transplantado, com a mesma naturalidade e a mesma mão firme de atuação, roteiro e direção, para muitos outros lugares. Pois o que se vê em Mr. Dreamer supera a busca pessoal e mostra que, por aí, existe muita música a ser descoberta, como marca da vida que prossegue, de um sonho que permanece por anos a fio.

CELSO LOUREIRO CHAVES

07 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

REFORMA SOB RISCO

Todos os últimos governos e legislaturas no Congresso trataram, no discurso, a reforma tributária como uma prioridade. Mas sempre, por dificuldades políticas ou de conciliação de diferentes interesses setoriais ou regionais, o avanço do tema, essencial para melhorar o ambiente de negócios no país, acaba travando. É o que se teme que vá ocorrer agora novamente, após o presidente da Câmara, Arthur Lira, destituir a comissão que tratava do assunto, no início da semana, quando o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da matéria, apresentou o seu texto. E isso após o próprio Lira, uma semana antes, ter propagandeado a divulgação do resultado, como prova de que o parlamento estava disposto a seguir firme em mudanças essenciais para modernizar o Brasil.

Sabe-se que o relatório de Ribeiro desagradou ao Planalto. Tratava-se de uma proposta ampla e ousada, com a unificação de impostos federais, estaduais e municipais. E, por ser ambiciosa, muito mais adequada à necessidade de simplificar o intrincado sistema de impostos do Brasil. O deputado chegou a incluir pontos que estão na outra proposta que tramita no Senado e da iniciativa do Executivo, para tentar o consenso. O governo federal, no entanto, insiste na ideia de levar adiante uma reforma fatiada, em quatro ou cinco partes, iniciando com a junção do PIS e da Confins e que, ao fim, poderia ter também a sempre rejeitada criação de um novo tributo aos moldes da CPMF. Parlamentares, secretários estaduais da Fazenda, especialistas e setor produtivo ficaram descontentes com a postura de Lira - este, afinado com o Planalto.

O grande receio do Executivo era ter de arcar com eventuais perdas de arrecadação de Estados e municípios com uma reforma mais ampla. Ao destituir a comissão, Lira remeteu o texto para plenário, no qual deve ser desmembrado e ter diferentes relatores para cada parte. A principal apreensão é a de que todo o trabalho, ao cabo, tenha sido colocado no lixo e tenha de se partir praticamente da estaca zero para formatar uma nova proposta que, possivelmente, como quer o governo, será mais tímida. Pela complexidade do tema, às portas do final do primeiro semestre, teme-se que a tão esperada reforma tributária fique, outra vez, como uma promessa. 

Afinal, a decisão de Lira acirrou animosidades no Congresso e há parlamentares dispostos a levar adiante o texto de Ribeiro. Ao mesmo tempo, o governo federal carece de uma melhor articulação no parlamento, apesar do fiel aliado na presidência da Câmara. Sem um avanço significativo em 2021, será uma tarefa ainda mais improvável de ser executada no próximo ano, quando todas as atenções se voltarão para as urnas.

O sistema de impostos do Brasil, já classificado de manicômio tributário, demanda uma simplificação urgente. É basilar para elevar a produtividade e a competitividade das empresas instaladas no país e, assim, contribuir para a retomada do crescimento, do emprego e da renda.


07 DE MAIO DE 2021
EDUARDO BUENO

Depois do Dilúvio

Sabe o Cheonggyecheon?

O quê? Não sabe o que é o Cheonggyecheon? Ainda bem, pois neste caso - ao contrário de regra em geral inabalável - o desconhecimento pode amenizar a vergonha. Pois o Cheonggyecheon é um riacho que corta o centro de Seul, na Coreia do Sul, de Leste a Oeste. As origens de Seul remontam a 4 mil a.C. e o principal responsável pela escolha do local, de acordo com os preceitos do feng shui, foi justamente o Cheonggyecheon (que quer dizer "riozinho de águas límpidas"). Até o ano 1406, o Cheonggyecheonzinho se mantinha em seu "estado natural". Mas em 1460 já havia virado um esgoto a céu aberto. Quinhentos anos mais tarde, o arroio - de apenas 5,8 quilômetros - foi retificado e recoberto por uma mortalha de concreto. Mas o que parecia ser o fim foi na verdade o (re)início da história. Alvo de um projeto de despoluição, desde 2005 o Cheonggyecheon está (quase) de volta ao seu "estado natural": hoje ele é outra vez um "riozinho de águas límpidas", com 25 espécies de peixes e lindas margens densamente arborizadas.

Por que estou falando nisso? Ora, porque o nosso Cheonggyecheon é o Arroio Dilúvio, também chamado de Riacho Ipiranga, ou, antes, de Arroio Sabão, ou, antes ainda, de "riachinho". Como o Cheonggyecheon, ele faz parte da história de Porto Alegre antes mesmo de Porto Alegre existir: a sesmaria de Jerônimo de Ornelas era delimitada pelo Gravataí ("rio dos gravatás") ao Norte e pelo Jacareí ("rio dos jacarés") ao Sul. Claro que você já percebeu que Jacareí era o nome original do também chamado Arroio da Azenha, o Rubicão dos farroupilhas, que cruzaram o riachinho no alvorecer de 20 de setembro para tomar Porto Alegre.

Sim, o Dilúvio da Ilhota, onde nasceu Lupicínio Rodrigues: do Areal da Baronesa, com seu quilombo, suas dores e seus tambores; da ponte de Pedra, vetusta e ancestral; do casario carcomido que se foi; dos salgueiros e chorões vertendo os galhos sobre a correnteza, como cortinas balouçando num teatro abandonado; das lavadeiras da prainha do riacho com seu canto triste. O Dilúvio das pinturas de Angelo Guido, de Weingartner, Gotuzzo e Libindo Ferraz; dos poemas roídos por traças de Augusto Meyer e Álvaro Moreyra, que ninguém mais lê.

O Dilúvio, que há anos nos mentem que vai virar o nosso Cheonggyecheon. Mas a Coreia não é aqui. O Haiti é aqui.

Mudando de saco para malas, mas sem deixar de falar de esgoto, faz uns dias que um de meus netos, de sete anos, me disse:

- Vovô Edu, tive um pesadelo horrível.

- Sonhou com o que, meu amor?

- Com um bando de bolsominions....

- Vai passar, vai passar.

E vai mesmo. Mas isso não significa que vamos esquecer. Eu não só não vou como deixarei tudo registrado para a posteridade. Para quando o Arroio Dilúvio - e o Brasil - talvez estejam fluindo com mais limpidez.

EDUARDO BUENO

quinta-feira, 6 de maio de 2021


06 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

O homem-réptil

O meu afilhado Santiago, filho do Potter e da Marcella, tem menos de dois anos de idade. É, basicamente, um nenê que anda. Ele mais tartamudeia do que fala, ele experimenta o mundo com as pequenas mãos gorduchas e com os olhos curiosos, ele é todo redondinho, como devem ser os nenês.

Li que os cientistas têm uma tese sobre bebês humanos e filhotes de bichos: eles são bonitinhos para comover eventuais predadores, sobretudo os da própria espécie. Um leão, por exemplo, não gosta de concorrência. Ele sabe que seu filhote crescerá, se tornará adulto e forte, enquanto ele, o pai, envelhecerá e se tornará mais fraco a cada ano. Então, o leão, muitas vezes, devora seus filhotes, como o deus Saturno. Mas, se os filhotes são belos e fofinhos, existe a possibilidade de o leão olhar para a ninhada e se condoer de lhes fazer mal e ir embora balançando a juba.

Claro, uma serpente não se comove com nada. Serpentes são, naturalmente, insensíveis. Não foi à toa que Jeová disse àquela que ofereceu a maçã a Eva:

"Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Rastejarás sobre teu ventre e comerás pó todos os dias de tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar!"

Escrevo isso pensando na tragédia de Saudades. Escrevo tentando entender como um ser humano é capaz de fazer mal a um anjinho de menos de dois anos de idade, um bebê redondinho, de beleza enternecedora, inocente como um filhote de leão, indefeso como um passarinho engaiolado.

Como isso é possível?

Pensei então que há homens que são como as serpentes, incapazes de sentir piedade, incapazes de se compadecer com a dor do outro. Serpentes em forma humana, é o que são. Répteis de sangue frio, para todo o sempre amaldiçoados.

Nossa missão, a missão da sociedade organizada, é identificar essas criaturas antes que elas possam fazer mal. Temos de refletir sobre isso, temos de montar estratégias para evitar que a monstruosidade de Saudades se repita.

Saudades... A Rádio Gaúcha mandou o repórter Vitor Rosa para Saudades. Vitor descreveu o que viu, como fazem os bons repórteres. Contou sobre a comoção da cidade, a tristeza invencível dos pais dos pequenos anjos atacados pelo homem-réptil, a dor e a perplexidade que contornam cada esquina. Contou tudo isso, o Vitor Rosa, e contou também sobre algo aparentemente prosaico que testemunhou: no velório coletivo, os pais das crianças sobreviventes apertavam com muito mais força as mãozinhas delas. Não há cena que resume com maior força o que aconteceu. Todos os pais do Brasil, hoje, estão, de alguma forma, apertando forte as mãos de seus filhos. E, na falta de garantias humanas, olhando para os céus e suplicando a Deus: "Cuida dele! Cuida dele!"

DAVID COIMBRA