quinta-feira, 6 de maio de 2021


06 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ALERTA DE BOICOTE

São reiterados os alertas para o Brasil, vindos de várias áreas e nações, sobre possíveis consequências negativas para o país caso não ocorra uma mudança substantiva na política ambiental. Governos, grandes empresas e investidores já chamaram a atenção para a necessidade de uma guinada especialmente nas questões de proteção da Amazônia, que comporta a maior floresta tropical do mundo e tem um fundamental papel para evitar mudanças climáticas ainda mais dramáticas em um futuro nem tão distante. Agora, são grandes supermercados e produtores de alimentos britânicos e da União Europeia que, em carta aberta a congressistas brasileiros, ameaçam um boicote aos produtos nacionais, retirando-os da cadeia de fornecimento.

Da forma como o governo Jair Bolsonaro age, parece considerar que esses avisos não passam de blefes. Mas é extremamente perigoso pagar para ver e quem pode acabar arcando com o prejuízo caso as advertências se concretizem é o agronegócio, o setor mais competitivo do Brasil. Conquistar clientes é uma tarefa árdua e perdê-los torna o trabalho de recuperar mercados ainda mais custoso. Sabe-se que há grande clamor protecionista na agricultura e na pecuária de vários países, especialmente os mais desenvolvidos, e tudo de que o produtores brasileiros não precisam, neste momento, são omissões e ações equivocadas por parte do governo federal para justificar represálias.

O caso específico, agora, é sobre o projeto de lei 510/21, que tramita no Senado. Versa sobre a regularização de ocupação de terras públicas e é considerado um risco pelo incentivo à grilagem na Amazônia. Se assim for, é uma ameaça à floresta. Precisa, portanto, de ampla atenção do Congresso para corrigir eventuais erros e, se for o caso, sepultá-lo. Caso contrário, será mais um sinal ruim emitido pelo Brasil, piorando a imagem do país no mundo. Na cúpula do clima, o Palácio do Planalto assumiu o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal até 2030, mas esta intenção precisa ser provada na prática. E já. Sob pena de a reputação nacional se deteriorar ainda mais. Ano passado, é preciso lembrar, grandes fundos e empresas já ameaçaram retirar seus investimentos e negócios do país, caso não assistissem a uma mudança de postura. Infelizmente, é preciso admitir que nada mudou, como mostram os atos do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

A grande maioria dos produtores rurais brasileiros e das empresas do agronegócio é ciente da necessidade de preservação do ambiente. Afinal, áreas conservadas e sadias são sinônimo de atividade econômica sustentável e perene. Mas, hoje, correm o risco de sofrer com esses possíveis boicotes. A conservação da natureza, por outro lado, é cada vez mais levada em consideração pelos mercados e pelos consumidores na escolha de produtos e serviços. Sustentabilidade, portanto, passou a ser compreendida como um pilar do capitalismo. A biodiversidade brasileira tem grande potencial de ser uma alavanca para o desenvolvimento, ao contrário do extrativismo primitivo. O Brasil conta com pesquisadores qualificados, universidades reconhecidas, instituições renomadas com a Embrapa e empresas conscientes, que, juntos, são capazes de fazer o país acelerar nesta rota, necessária e oportuna, com benefícios para o Brasil e o mundo. 



06 DE MAIO DE 2021
+ ECONOMIA

Com lucro recorde, Gerdau investe no RS

A Gerdau alcançou lucro recorde no primeiro trimestre, de R$ 2,5 bilhões. Esse valor cobre cerca de 70% dos investimentos previstos para 2021, de R$ 3,5 bilhões. Neste ano, a unidade de Charqueadas (foto), antiga Aços Finos Piratini, está recebendo R$ 1 bilhão, dividido com as usinas de Mogi das Cruzes e Pindamonhangaba, ambas em São Paulo. Sua produção é dedicada ao mercado automotivo. O CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, detalhou, respondendo a pergunta da coluna, que o investimento na unidade gaúcha se destina a preparar a siderúrgica para os próximos 10 anos:

- O mercado automotivo está solicitando aços especiais para veículos mais leves, alinhados à tendência de crescimento na produção de híbridos e elétricos.

Também a geração de caixa foi a mais alta dos 120 anos da empresa: R$ 4,3 bilhões no indicador Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações). Esses recordes se devem ao aumento no consumo de aço, principalmente nos Estados Unidos e no Brasil. A receita líquida alcançou R$ 16,3 bilhões nos três primeiros meses do ano, 77% acima do período de janeiro a março do ano anterior, com aumento de vendas de 15%.

Tramontina doa R$ 1,1 milhão

A Tramontina fez nova doação à Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. São R$ 1,1 milhão para aquisição de equipamentos e reformas no Pavilhão Pereira Filho, unidade de referência em pneumologia e cirurgia torácica. A instituição hospitalar vai adquirir um endoscópio destinado à ultrassonografia endobrônquica. Desde o início da pandemia, a Tramontina distribuiu cerca de R$ 6 milhões entre recursos e produtos da marca para hospitais e instituições do Estado, além de cestas básicas aos municípios da Serra. Também desenvolveu e doou 50 unidades do equipamento de suporte respiratório Ventra para cerca de 20 municípios. Produzido em Carlos Barbosa, foi homologado pela Anvisa como alternativa em situações de emergência.

MARTA SFREDO

06 DE MAIO DE 2021
L.F.VERISSIMO

O ponto da ganância

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária.

Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho - ou ficam melhores, ou azedam.

E já ouvi dizerem de uma mulher que ela lembrava um vinho da Borgonha.

Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas).

O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto.

Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da era vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existiam o indivíduo e suas fomes.

Dilema antigo.

Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando.

Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela sra. Thatcher.

No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa.

Digo, o pudim.

Claro que para isso funcionar é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento.

Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira.

O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja medieval.

A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana.

A Inquisição mandava os usurários para a fogueira, onde...

Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.

Luis Fernando Verissimo está em licença médica.

Esta coluna foi publicada originalmente em 4 de maio de 2015.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 5 de maio de 2021


05 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

O que querem os bolsonaristas "sérios"

Os bolsonaristas fizeram manifestações robustas em defesa do governo no fim de semana passado. Muita gente na rua, apesar da pandemia. Parece que bolsonarista não tem medo do vírus, mas, ainda que vivêssemos tempos normais, as manifestações poderiam ser consideradas fortes.

Por que isso?

Não é estranho tanto empenho em defender um presidente grosseiro e um governo errático?

Tenho cá comigo que Bolsonaro não está no centro dessa questão. Não é seu suposto carisma (que ele não tem), suas ideias (que são poucas), sua forma de falar ou de se comportar que motivam essas pessoas. Bolsonaro está sendo defendido por elas porque ele é o cara que elas colocaram lá. Poderia ser qualquer outro, desde que fosse radicalmente contra as propostas de esquerda. Se fosse o Tiririca, seria o tiririquismo; como é Bolsonaro, temos o bolsonarismo.

Mas existe um fundo, digamos, sério na mobilização dessas pessoas. Elas têm razão em muitas de suas reclamações, sobretudo na área da economia. Porque as legislações tributária e trabalhista são realmente exageradas e realmente punem o empresário. Porque o Brasil continua sendo cartorial, burocrático e hostil a quem quer empreender.

Todas essas reformas, e algumas mais, como a federativa e a do código penal, são razoáveis e seriam perfeitamente negociáveis no Congresso. Haveria mudanças aqui e ali, avanços em alguns pontos, recuos em outros. Mas o próprio Bolsonaro não surge defendendo-as com vigor. Suas energias estão todas concentradas na pauta ideológica, em obsessões, como a liberação das armas, e em campanhas bizarras, como a defesa da cloroquina no tratamento da covid.

É aí que estoura a contradição. Se Bolsonaro não é entusiasta das reformas, o seu governo provavelmente não avançará nessa discussão. Assim, as pessoas que saíram às ruas em defesa do governo não conseguirão reformas com a esquerda, que é contra essa pauta, nem com a direita que elas elegeram, que não parece afeita a esse debate. Bolsonaro parece mais preocupado com a reeleição do que com algum projeto de mudança do Brasil.

Quando perceber isso, esse brasileiro sério que saiu às ruas no fim de semana talvez se sinta abandonado. Então ele terá de procurar outro nome para representá-lo. É o que pode fazer a diferença. O ex-bolsonarista, o bolsonarista desiludido, que jamais será esquerdista, pode decidir quem será o próximo presidente do Brasil.

DAVID COIMBRA

05 DE MAIO DE 2021
ARTIGOS

PENSE E ADAPTE-SE

Dietas, restrições por tempo limitado, algo dá errado. Por que nenhuma funciona? Sofro e, alguns meses depois, frustração. Qual será a dieta certa? Não adianta, gosto de comer! Mas não suporto esse peso extra! E sei, tenho me atualizado, manter o peso é fundamental para minha saúde... fazer exercícios. Ah, exercícios! Não tenho tempo, muita persistência. Não é pra mim! Equívoco completo.

Nossa adaptação ao meio depende dele, sempre dependeu. Fomos feitos para o movimento assim como um carro, se passarmos anos parados na garagem, vão surgir problemas. Sorte nossa que o investimento é baixo. Boa saúde? Trinta minutos diários vão servir, pouco de foco no músculo, pouco no pulmão e o resto se ajeita. Profissionais não faltam.

Mesmo com os problemas da covid-19, vivemos uma situa- ção de acesso fácil a comida. Sim, normalmente escutamos o contrário, mas não é verdade. Encontramos comida em qualquer lugar, a qualquer hora. Uma pessoa com uma renda pequena pode comprar comida. Não falo de abundância, talvez comida de má qualidade nutricional, mas o acesso existe e é fácil. Encontramos comida barata na farmácia, no posto de gasolina. Não é à toa que existem mais pessoas com problemas relacionados ao excesso do que à falta de alimento. E essa realidade se desenvolveu em poucos anos e, do ponto de vista evolutivo, num sopro. Um século não é o suficiente para o "corpo" entender que não mais precisa armazenar energia como antes, nossas reservas não precisam mais estar todas "intracorpo", só parte delas. Uma pequena parte. Existe refrigerador! Ou um cereal no bolso ou a fruteira da esquina.

Realidade boa transformada em dura. Muita oferta gostosa atende ao prazer. E vivemos por essa palavra e não queremos domá-la. Ela é selvagem! Sua infância, cerca de 10 mil anos, foi desafiadora, bruta. Hoje se lambuza. Interessante que o processo civilizatório se alimenta de educação. Sem ela, não há convivência suportável. Freamos nossos instintos pela convivência. Ajustamos comportamentos por respeito ao próximo. Já é momento de criarmos respeito próprio, ato civilizatório interno adaptado ao meio, para vivermos melhor.

 Professor de ciência do esporte andrexavier@ciavital.com.br - ANDRÉ XAVIER


05 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

LEGALIDADE E MORALIDADE

O Brasil amarga 14,4 milhões de desempregados e outros 6 milhões de desalentados, contingentes que, somados, representam um número superior à população do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Com a economia cambaleante, em crise praticamente crônica desde o início da recessão de 2015 e 2016, a miséria e a fome aumentam a olhos vistos no país, assim como no Estado. Mas, mesmo diante do quadro de extrema dificuldade atravessado por boa parte dos brasileiros, há deputados federais que, alheios à realidade, não se fazem de rogados no momento de gastar dinheiro público sem qualquer parcimônia, como é o caso de alguns gastos com aluguel de carros por parlamentares gaúchos, mostrado pela colunista Rosane de Oliveira.

Os deputados federais do Rio Grande do Sul despenderam R$ 3,3 milhões com a locação de veículos nos últimos 27 meses. Além do aluguel de carros de luxo, há o caso do parlamentar Nereu Crispim (PSL). Sozinho, gastou espantosos R$ 250 mil e justo em um período que compreendeu a pandemia, em que os deslocamentos deveriam ser menores, substituídos por meios virtuais para o contato com eleitores.

Não se trata de questionar a legalidade do aluguel dos veículos, mas a moralidade dos desembolsos em dias de tantas privações da população, a pagadora dos impostos que custeiam uma série de mordomias injustificáveis em tempos de bonança e ainda mais questionáveis em uma época de aumento da pobreza, falta de trabalho e repique da inflação, especialmente dos alimentos. Esperava-se, dos representantes da população, um maior discernimento em relação ao quadro de penúria atravessado pelos brasileiros e conexão com a realidade, utilizando as verbas a que têm direito com maior comedimento.

O episódio se soma a outros recentes como a elevação em 170% do limite de reembolso de despesas médicas de deputados na rede privada de saúde, decidida pelo presidente da Câmara, Arthur Lira. O valor passou de R$ 50 mil para R$ 135,4 mil, e isso que os parlamentares já contam com um plano de saúde que permite atendimento em hospitais privados.

O parlamento é um dos pilares da democracia e, a despeito de serem passíveis de críticas, deputados e senadores são protagonistas do regime e atores essenciais no sistema de freios e contrapesos que equilibra o jogo dos poderes no Brasil. Institucionalmente, portanto, o Congresso precisa sempre ser defendido. Mas cabe aos representantes do povo compreender as vicissitudes pelas quais passam seus representados e, assim, atuar com maior austeridade em seus gastos, como demonstração de respeito à população e ao dinheiro público, sem prejuízos às suas atividades. Devem também entender o valor de preceitos como o da transparência e a importância da fiscalização por parte da imprensa, dos órgãos de controle ou mesmo de eleitores, para serem cobrados sempre que existir desvio ou exagero. Quem não absorve esse princípio, infelizmente, se mostra desprovido do verdadeiro espírito democrático. 


05 DE MAIO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Hermano solidário no parque

Em 1978, Carlos Rios fugia da ditadura militar na Argentina. Deixou a família em Buenos Aires e, aos 24 anos, parou em Uruguaiana. Ficou pouco tempo na Fronteira Oeste e decidiu buscar vida nova em Porto Alegre. Trouxe consigo a profissão de barbeiro e cabeleireiro, iniciada ainda na adolescência.

Quarenta e três anos depois, o argentino não criou riqueza, contudo mostra orgulhoso a filha, gaúcha, de 18 anos. Elevou a expressão "hermano" ao retribuir um pouco do acolhimento recebido: todos os domingos, sobe na bicicleta de três aros e se dirige ao parque da Redenção, onde corta o cabelo e a barba de pessoas em situação de rua:

- Eles estão na miséria, mas posso contribuir para estarem com um aspecto melhor. Quando estão barbudos e com o cabelo feio, as pessoas mostram medo. Acham que são criminosos. E na maioria são pessoas boas.

Leva suas "ferramentas" em uma maleta presa no bagageiro. Tudo doado por um cabeleireiro sensibilizado pelo voluntário. Banners e um tripé para o celular também são transportados. Pelo telefone, grava parte da rotina, publicada no perfil @lokoloco625 no Instagram.

Para evitar exposição ao coronavírus, troca as luvas descartáveis a cada atendimento. Veste touca, macacão e máscara modelo N95 PFF2. Afere a temperatura dos clientes antes de iniciar o corte e espirra álcool gel a todo instante. A iniciativa ganhou o nome ONG de Rua Solitário, com o "T" no lugar do "D":

- Muitos disseram que iam me ajudar, mas sempre fui só eu. Tudo bem, fazer o bem é algo que faço pra mim, que me enche de felicidade.

Contato para qualquer ajuda pode ser feito via Instagram ou pelo WhatsApp (51) 99407-1115.

TIAGO BOFF

05 DE MAIO DE 2021
MÁRIO CORSO

O medo que as mulheres têm

Duas colunas atrás, escrevi sobre um caso de injustiça: uma falsa acusação de abuso que um professor sofreu durante um voo e acabou preso. Terminei o texto dizendo que qualquer um estaria sujeito a isso. Afinal, nesses casos, a acusação já é uma condenação. Hoje, em tempos do tribunal da internet, não esperamos as decisões da Justiça. Julgamos sem saber os detalhes e, rapidamente, os enviamos à fogueira.

Uma leitora escreveu fazendo uma importante precisão: "Qualquer um, não, os homens adultos correm este risco". Ela pondera que o alerta procede, visto que nada se ganha com mais injustiças. Segue dizendo que esses equívocos prejudicam a busca dos verdadeiros culpados. Mas conclui com uma provocação certeira: "Se os homens adultos estão agora com medo de acusações, se isso constrói uma sensação de perigo para sua integridade, se andam tomando redobrados cuidados; sejam bem-vindos ao nosso mundo, nós, mulheres, conhecemos a apreensão desde sempre".

Ela me desafia a encontrar uma mulher que nunca passou por um situação de abuso, ameaça de abuso, ou constrangimento sério, apenas por ser mulher. Sinceramente, eu sempre soube disso. Analistas vivem de ouvir histórias de vida e, realmente, não há, entre as mulheres que escutei, uma sequer sem um relato desagradável para contar. Atenção, estou falando do universo de mulheres que buscam tratamento por motivos variados, quando o abuso, ou algo do gênero, é um capítulo a mais de sua vida.

Quando engatam a falar do seu medo, narram situações em que tiveram que contar apenas consigo próprias para sair de uma ameaça. De como não há lugares seguros, às vezes nem dentro de casa. De como já se desiludiram com quem supostamente deveria cuidá-las. De como se autopoliciam no vestir e no falar. Enfim, do perigo que as espreita sempre e em qualquer lugar.

Esses são os momentos em que me envergonho de ser homem. Raros são os mal-entendidos, geralmente os episódios são de covardia, de assimetria de poder, de oportunismo canalha.

Nós, homens, não somos todos iguais, existem os que as respeitam, que as cuidam. O que, sim, temos todos em comum é não termos a dimensão do que as mulheres passam, esse medo nos é desconhecido. Isso faz com que às vezes até quem não tem má intenção possa criar um constrangimento.

Porém o pior mesmo, na versão delas, é quando nós, homens, queremos narrar o que elas passam. Quando nos arrogamos a saber melhor do que elas o que sentem. Quando nos protegemos dizendo que não foi bem assim, ou que elas exageram.

As conquistas da libertação feminina são recentíssimas, coisa de três gerações. A dominação masculina é milenar, levaremos bom tempo para abandonar nossa selvageria. Isso não é um pedido de clemência, não há perdão para os abusos. E, depois de tanto apagamento delas, é difícil pedir paciência...

MÁRIO CORSO

terça-feira, 4 de maio de 2021


04 DE MAIO DE 2021
LUÍS AUGUSTO FISCHER

A carta, lembra?

Ontem, completaram-se 14 anos da morte do meu irmão, Sérgio, vulgo Prego, que também era meu colega de profissão. Amanhã, meu pai, Bruno, completa seus 89 anos, também ele professor, também de língua materna (e de Latim, ele). Não é só por aí que se explica uma certa melancolia que me tomou por estes dias.

Para além disso e do mais de ano em isolamento, sem abraçar os amigos e parentes, sem brincar abertamente com as crianças da família - a Lia vai completar um ano daqui a pouco, e eu ainda não a peguei no colo! -, sem sair para encontrar qualquer um que interessasse a qualquer momento, para além disso tudo tem um livro, que ainda estou lendo mas que desde já recomendo vivamente: Celso Furtado - Correspondência Intelectual - 1949-2004 (Cia. das Letras).

Do autor, li o sempre vivo Formação Econômica do Brasil, além de uns quantos artigos e de sua obra de memória, espalhada em três volumes de leitura fácil (como escrevia bem!) e instrutiva. E agora essa beleza, umas 300 cartas, mandadas e recebidas, selecionadas de um acervo de mais de 15 mil cartas. Em papel.

Furtado foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros de sua geração, que é também a de Antonio Candido, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Paulo Freire e do nosso Ernani Maria Fiori. Nascido em 1920, fez um raro doutorado em Paris no pós-Segunda Guerra e de lá voltou para ajudar na invenção do Brasil moderno - sua parte era o planejamento estratégico, que pensava o país muitas gerações adiante. Foi cassado na primeira lista do golpe de 64, junto com tanta gente boa que foi sacrificada por uma ditadura que, além de tudo o mais, sacrificou o futuro democrático numa sociedade menos desigual, que estava sendo gestado naqueles anos.

A conversa escrita de Furtado com uma série ampla de interlocutores, nacionais e internacionais, que se pode ler no volume organizado por Rosa Freire D?Aguiar, dá notícia da brutalidade e da truculência, mas também dos sonhos e da vontade de fazer o Brasil abandonar sua condição subordinada para ganhar estatura maior, para propor-se um destino altivo.

Após 20 anos fora, lecionando a maior parte do tempo nos mais prestigiosos cursos de Economia na França, nos EUA e noutras partes, sempre com foco no desenvolvimento do Brasil e da América Latina, Celso Furtado teve a humildade de aceitar o ministério da Cultura, na floração da Nova República. Esta república que o atual presidente quer enterrar, para nos devolver a uma condição de meros exportadores de commodities primárias, ao custo do nosso futuro, que vai sendo destruído sistematicamente, da ecologia à nossa íntima esperança. E com o aplauso de gente que, bá, não sei como pode se olhar no espelho.

LUÍS AUGUSTO FISCHER

04 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

Por que choram os Big Brothers

Fui ver um pedaço do BBB, antes que acabe. Que choradeira. Neste programa, no domingo, a direção da emissora apresentou uma edição com os melhores momentos de cada participante. Foi uma chance maravilhosa que eles tiveram de chorar à vontade e, assim, demonstrar sua humanidade. Um deles, o Gil, começou a chorar ANTES das cenas. Ele estava tocado por rever sua linda história na competição e o fato de ela ainda não ter sido apresentada era um pormenor de somenos importância. Outra participante, Camilla, disse, entre lágrimas, enquanto se assistia na tela:

- O que estou vendo é uma mulher forte.

Ela disse isso!

Acontece que o brasileiro chora. Nem tanto de dor, e mais de emoção consigo mesmo. Ele chora pelo que supostamente passou, ele chora por todas as presumidas dificuldades que enfrentou, ele chora por sua mãezinha, que fez sacrifícios para ele ter educação. Se for pobre, bem, ele quererá esquecer a pobreza. Mas, se for rico ou remediado, recordará aos soluços de seu passado de padecimentos. Ele saiu lá debaixo e agora está na capa da revista. Ele venceu.

O brasileiro talvez seja o oposto do inglês, que tem toda aquela fleuma... bem, britânica. Mas o curioso é que o personagem que é o símbolo do espírito inglês, Winston Churchill, era um homem que chorava, cantava, dançava, se emocionava em público. Se bem que, claro, ele estava salvando o Ocidente, não disputando a prova do líder.

Churchill era um homem emotivo, mas os ingleses, em geral, não são de chorar. No velório da Princesa Diana, um dos maiores episódios de comoção da história da Velha Álbion, eles mostravam toda a sua tristeza, sem chorar. Elton John chegou atrás de sua franjinha, sentou-se ao piano, cantou a bela Candle in the Wind, eu quase me despetalei feito um BBB, enquanto eles se mantinham frios e secos como... como ingleses.

Fosse no Brasil, os soluços abafariam o som da música.

Por que choramos tanto?

O pai do Chico tinha razão: somos um povo regido pelo coração. Estamos sempre prontos a nos comover e nos sentimos bem quando choramos todos juntos. Lembro das mortes de Tancredo em 85 e a de Senna em 94. Foram tão trágicas quanto a de Lady Di, mas muito mais pranteadas. Em ambos os casos, as pessoas corriam atrás dos carros de bombeiros que levavam os caixões e choravam e choravam sem parar, num desespero para ver o morto pela última vez. Foi um descarrego. O Brasil parecia estar lavando seus pecados com aquelas lágrimas. Ilusão, é óbvio. Os pecados continuaram conosco. Talvez até tenham se tornado mais graves e mais difíceis de pagar. Mas que choramos, ah, choramos.

DAVID COIMBRA

04 DE MAIO DE 2021
INVASÃO VIRTUAL

Os efeitos do ataque hacker ao Judiciário

A rotina dos operadores do Direito no RS está tumultuada. Desde que o sistema de informática da Justiça foi alvo de ataque hacker, na última quarta-feira, servidores do Judiciário e advogados vivenciaram perdas de arquivos e invasão de contas e tiveram de conviver com atrasos processuais - esse, um problema que atingiu todos que atuam nesse ramo.

Só no Judiciário existem cerca 18 mil computadores, que tiveram de ser, de uma hora outra para outra, desconectados para evitar aumento da contaminação vir­tual. O Tribunal de Justiça (TJ) admite ter recebido relatos de que, além da paralisia nos processos, o vírus deixou rastro de prejuízos particulares a quem acessava os sistemas de informática judiciais no momento do ataque. Entre eles, servidores da Justiça e advogados, que tentam agora reaver seus arquivos atingidos pelos hackers.

ZH contatou algumas dessas pessoas, como a advogada porto- alegrense Fabiana Borba Hilário, especialista em Direito Familiar. Ela costuma acessar o site do TJ assim que amanhece. Para isso, deixa sempre aberto, com a senha salva, o eproc (um dos sistemas de movimentação virtual de processos). Na madrugada de quarta-feira, Fabiana tentou e a página travou. Foram várias tentativas, sem sucesso. Como a informação oficial era de que o eproc estava funcionando e os outros sistemas também, a advogada acessou o site pela manhã. Só que a invasão estava no auge.

- Quando entrei de novo no sistema do TJ e baixei um documento, apareceu uma tela estranha. Aí o computador trancou. Depois, desligou e não ligou mais. Levei a um técnico e ele disse que o HD foi corrompido. É um desespero, minha vida profissional está ali - desabafa.

Fabiana está convencida de que foi vítima de efeito colateral da invasão hacker ao Judiciário. Calcula que, só no que se refere ao ano de 2020, perdeu dados de 95 clientes que estavam no notebook. Petições, defesas, pesquisas de doutrina jurídica, cópias de leis. Todas as pastas sumiram. Ela não tinha backup da maioria dos documentos.

Atrasos

Outras centenas de processos, mais antigos, ela talvez consiga recuperar, quando o sistema do TJ voltar. Mas a respeito dos documentos do notebook, o técnico não deu muita esperança.

O que atingiu a todos os operadores do Direito é o atraso, em cascata, dos procedimentos. O criminalista porto-alegrense Lucio de Constantino calcula que mais de cem processos criminais seus sofreram retardo de prazos na semana passada. Alguns julgamentos começaram e não foram concluídos, outros foram adiados.

- A rotina no escritório, nos casos de urgência, está ocorrendo através de agendamentos junto aos plantões dos foros, por meio de WhatsApp - diz Constantino.

Policiais e integrantes do Ministério Público também tiveram dificuldade de conseguir mandados judiciais, mas aí apelaram para telefonemas aos juízes. Foram atendidos, na maioria das vezes, com despachos feitos à mão, como admite o desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, presidente do Conselho de Comunicação do TJ:

- Tivemos de retomar o uso daqueles velhos equipamentos, a caneta e o papel. Mas felizmente, os processos mais modernos já voltaram a ser acessados virtualmente.

A Polícia e o MP abriram investigação. A suspeita é de que tenha sido usado provedor no Exterior.

- São 18 mil máquinas. Terá de ser feita perícia nas que podem ter sido alvo e, só então, pedido de ação contra os suspeitos - pondera o delegado André Anicet.

HUMBERTO TREZZI

04 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A IMPORTÂNCIA DOS CONTROLES INTERNOS

É estarrecedor o caso dos desvios de recursos da prefeitura da pequena cidade de Dom Pedro de Alcântara, mostrado pelo repórter Giovani Grizotti, no domingo, no Fantástico. Foi mais assombrosa ainda a facilidade com que o servidor acusado agiu ao longo de cerca de um ano, transferindo verbas do município para a sua conta bancária pessoal. De acordo com a versão conhecida, o tesoureiro, agora indiciado por peculato, tinha diversas senhas de outras pessoas e as usava para as transações. Espanta sobretudo a demora para o crime ser percebido pela administração, indicando uma preocupante falta de controles internos adequados para evitar o desfalque de R$ 8 milhões, o equivalente a metade do orçamento da prefeitura. Muito dinheiro, portanto.

O Rio Grande do Sul é formado por centenas de pequenos municípios e, apesar do caso inusitado de Dom Pedro de Alcântara, seria conveniente que o episódio servisse como um alerta generalizado para que se busque verificar a eficiência dos sistemas internos de controle e fiscalização para evitar situações semelhantes, mesmo que bem menores. Ou então para reforçar essas travas. O servidor acusado de cometer o golpe certamente se encorajou a levar adiante o desvio por perceber as brechas por onde poderia agir. E, por ser conhecido na comunidade, contava com uma confiança que se mostrou indevida. Essas possíveis falhas ou fragilidades, é preciso ressaltar, em nada alteram o caráter de vítima da prefeitura ou atenuam a conduta inqualificável do servidor indiciado.

O resultado do surpreendente fato sucedido em Dom Pedro de Alcântara, município de 2,5 mil habitantes do Litoral Norte, será a precariedade dos serviços básicos. Estudantes que voltam às aulas podem ficar sem merenda e transporte. Faltam remédios na farmácia da prefeitura, não há recursos para consertar estradas e haverá dificuldade para tocar obras essenciais. Até recursos do fundo de previdência foram desviados.

É bem possível que o tesoureiro acabe punido pela Justiça, após a investigação conduzida pela Polícia Civil. Mas, mas para os moradores e contribuintes da cidade, pode ser tarde demais. Se for verdadeira a história contada por ele, de que usou o dinheiro para tentar recuperar prejuízos que teve no mercado financeiro e acabou perdendo todo o montante outra vez na especulação, será difícil a administração reaver os recursos que hoje fazem falta para uma série de serviços essenciais para os cidadãos. Mais uma razão a mostrar a importância de mecanismos próprios das gestões locais para impedir tentativas semelhantes, outros atos de corrupção e tentar detectá-los no nascedouro, antes que seja necessária a atuação de agentes externos, como polícia, Ministério Público ou Tribunal de Contas do Estado.


04 DE MAIO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Mordaças

Vacinado e revacinado, fui às compras dia desses com a minha máscara associativa que ostenta uma frase emblemática para o povo do jornalismo: "Máscara sim, mordaça não!". A jovem atendente da feira livre pesou as peras solicitadas, olhou bem para o meu rosto semiencoberto, leu a inscrição em voz alta e perguntou:

- O que é mordaça?

Expliquei, claro, mas saí da praça um tanto decepcionado. Primeiro comigo, pois imaginava que uma mensagem tão simples pudesse ser facilmente compreendida por qualquer pessoa letrada. A menina sabia ler bem. Mas esbarrou na palavra desconhecida.

Então, redirecionei minha frustração para uma realidade que me parece cada vez mais evidente, representada pelo crescente desapreço aos livros e à leitura. O desinteresse pelas letras está associado ao domínio da comunicação digital, que absorve completamente a atenção das pessoas, mas limita-lhes o vocabulário e a capacidade de interpretação.

E não se trata somente da constatação de um escriba desiludido. Há estudos sobre isso: quem se comunica predominantemente por mensagens de texto, com diálogos coloquiais, gírias e figurinhas, acaba usando quase sempre as mesmas palavras, a maioria delas abreviadas. Em consequência, tem dificuldade para entender notícias, reportagens e comunicados mais elaborados.

A linguagem digital usa e abusa dos emojis, figurinhas inventadas pelos japoneses para expressar emoções e tornar a comunicação mais divertida. Li outro dia uma tese interessante, de que tais recursos se assemelham às primeiras formas de representação gráfica dos seres humanos, as pinturas encontradas em cavernas pré-históricas. Fiquei preocupado: será que estamos regredindo?

Porém, depois de refletir sobre o episódio da feira, cheguei a uma conclusão mais animadora. Como a jovem demonstrou curiosidade e não teve constrangimento de me perguntar o que não sabia, o espaço para o aprendizado continua livre. Nosso desafio como educadores e comunicadores talvez seja encontrar fórmulas mais adequadas para a transmissão do conhecimento.

Aquele emoji que tem um zíper na boca, por exemplo, pode ser mais compreensível para a geração digital do que a palavra mordaça. Preciso aprender a desenhar.

NÍLSON SOUZA

04 DE MAIO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Uma gaúcha em Nova York

Um violoncelo na mão e ideia na cabeça. Foi assim que a porto-alegrense Marjana Rutkowski, 58 anos, chegou ao Conselho da ACMP, Associated Chamber Music Players (Associação dos Músicos de Câmara), que tem sede em Nova York. Marjana é a única não americana e não europeia a integrar o seleto grupo da entidade, que financia projetos de música erudita em todo o mundo. Ela foi uma das madrinhas de um festival de música online idealizado por Maurício Souza, gaúcho que mora em Florianópolis.

- Não é difícil conseguir ajuda. A gente acaba criando barreiras invisíveis quando, na verdade, basta apresentar um bom projeto no lugar certo - conta.

Marjana morou 20 anos nos Estados Unidos, período no qual aperfeiçoou a sua formação em Yale. Tocou também na Europa, Canadá, Israel e Brasil, onde entrou aos 17 anos para a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Entre as experiências no Exterior, se destaca a participação no quarteto de cordas do Kammermusik, festival realizado na Universidade de Oxford.

A ACMP é uma organização sem fins lucrativos que se propõe a estimular e expandir a execução de música de câmara em todo o mundo, independentemente da origem, idade e habilidade dos músicos, seja em projetos individuais, em grupo, ou vinculados a instituições. A música de câmara se define como "reunião instrumental para um pequeno agrupamento", que vai de dois até cerca de 10 componentes. Empolgada, Marjana, que se define, rindo, como uma "ativista louca", segue ensaiando e fazendo planos.

- Vou seguir tocando por muitos anos - afirma.

A plateia - e a música - agradecem.

TULIO MILMAN

segunda-feira, 3 de maio de 2021


03 DE MAIO DE 2021
DAVID COIMBRA

Jeans em casa - em nome da dignidade

Nunca mais vou usar abrigo. Nunca mais!

Tomei essa decisão no fim de semana. Com essa história de trabalhar em casa e tal, habituei-me a vestir abrigo por ser mais confortável. Calça de abrigo, digo, que casaco jamais usei. Aí, um dia, vinha passando pela frente de um espelho de corpo inteiro e vi minha imagem refletida. Aquela calça molenga, disforme, menos íntegra do que um pijama. Parecia Glip e Glup, criaturas capazes de assumir múltiplas formas, dos Herculoides. Senti um laivo de desprezo por mim mesmo e murmurei baixinho:

- É a decadência... A decadência...

Mas, como dizia Lobão a respeito de Monique Evans, você pode ser decadente e manter a elegância. Foi a minha opção. Resolvi usar calças jeans mesmo em casa. Se não garante a elegância, pelo menos preserva a dignidade.

A verdade é que abusamos da irreverência no vestir. É uma das desgraças dos países tropicais. Na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, você pode pôr um sobretudo. Está certo, pouco usei sobretudo quando morei nos Estados Unidos. O que usava, no inverno, era minha jaqueta preta da North Face, térmica, impermeável, uma delícia.

Essa jaqueta, eu a vestia no primeiro dia de frio, 31 de outubro, quando estávamos festejando o Halloween. Era ela, mais minhas maravilhosas botas Ugly, que foram desprezadas pela ignorância estética do Admar e do Cabeça quando as calcei no Brasil, mais uma camiseta que os americanos chamam de warm, calças jeans, às vezes com ceroulas por baixo, uma camisa grossa, de preferência xadrez, luvas e touca. Assim ia de 31 de outubro até as fímbrias do meu aniversário, 28 de abril, não raro metendo-me por maio adentro.

Admito, portanto, que não era exatamente elegante, não vestia sobretudo nem chapéu. Mas poderia, se quisesse. Aqui, só o Fiuk bota chapéu, e é estranho, ele usa para cobrir as partes quando pula pelado na piscina.

Cultivo a tese de que a perda da nossa formalidade ao vestir corresponde ao desrespeito com que nós, brasileiros, tratamos uns aos outros. É muita irreverência. O ex-ministro do Supremo, Paulo Brossard, por exemplo, sempre usou chapéu. Um dia, quando ele ia saindo do tribunal, um gaiato lhe deu um tapa amistoso na barriga e comentou:

- Ministro! Qual é a novidade?

E Brossard, impávido colosso:

- Afora essa nossa intimidade, nenhuma...

Adoro essa história.

Conheci Brossard. Sua sisudez ao vestir-se e ao falar impunha respeito. Eu empregava mesóclise quando falava com ele.

Hoje, o presidente da República e os ministros fazem uma reunião, você ouve a gravação deles conversando sobre os rumos do Brasil e parece que ouviu um encontro dos presos do Central. Pudera, o presidente usa camisa de time.

A mesma coisa Lula, que, quando era presidente, foi fotografado de calção e camisa regata, carregando um isopor cheio de cervejas na cabeça.

E a liturgia? Onde fica a liturgia?

Você dirá que a liturgia não nos poupou de maus políticos. Verdade, mas pelo menos havia respeito. Havia dignidade. Eu, em nome da dignidade, não uso abrigo nunca mais.

DAVID COIMBRA

03 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

A CURA PARA O DESEMPREGO

À tragédia materializada em mais de 400 mil mortes pela covid-19 no país segue-se o drama do desemprego. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou na sexta-feira que a desocupação no Brasil no trimestre finalizado em fevereiro chegou a 14,4%, a mais alta taxa para o mês desde o início da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. São 14,4 milhões de pessoas que procuram trabalho e não encontram, além de outros 6 milhões de desalentados, também o maior número desde o começo do levantamento. É um contingente que desistiu de buscar oportunidade frente à inexistência de perspectiva de sucesso na tentativa de conseguir uma ocupação.

É uma segunda catástrofe que se abate sobre o país e requer uma série de iniciativas em diversas frentes para que seja uma tendência revertida no médio prazo. São providências que devem vir, especialmente, das searas econômica e da saúde. Técnicos do IBGE advertem: os números do desemprego de março devem ser ainda mais trágicos, por ter sido o mês com o maior volume de medidas que buscaram conter os contágios pela covid-19, levando uma grande quantidade de negócios a ter de fechar as portas temporariamente.

Espera-se que ao menos alguns programas, lançados especialmente pelo governo federal, possam minimizar o sofrimento de parte desses brasileiros. Muitos têm dificuldade para garantir condições mínimas de dignidade a suas famílias, o que tem se traduzido no aumento da fome. Mesmo em menor valor e beneficiando uma quantidade inferior de pessoas em relação à primeira rodada do programa, no ano passado, o auxílio emergencial é paliativo indispensável, neste momento, para evitar um crescimento ainda maior da miséria.

Mesmo com certa demora, o Planalto também reeditou na semana passada o programa que permite a redução temporária da jornada de trabalho e de salários, essencial para evitar mais demissões, como mostraram os resultados exitosos do ano passado. Agora, é preciso celeridade na busca por um acordo entre governo e Congresso para a volta do Pronampe, programa de crédito subsidiado para amparar pequenas e médias empresas impactadas pela pandemia. Ambas são iniciativas decisivas para que o desemprego não avance ainda mais.

A cura para o desemprego e o fortalecimento do mercado de trabalho, no entanto, só virão com a aceleração e o avanço da vacinação contra a covid-19 no país. É o que proporcionará uma reabertura mais segura das atividades econômicas e aumentará o grau de confiança de empresários, consumidores e investidores. A pesquisa do IBGE, mais ampla em relação ao Caged, que capta apenas vagas com carteira assinada, mostra de forma mais nítida as dificuldades dos que obtêm sua renda na informalidade. Mas, mesmo com a reversão da curva da desocupação, ainda vai demorar para o país ter taxas baixas de desemprego, como se observava há uma década, por exemplo. 

É preciso preparar o terreno, de qualquer forma, para chegar lá. Ao lado de medidas de caráter de urgência, portanto, é preciso avançar em pautas estruturantes que modernizem o Brasil e melhorem o ambiente de negócios, como é o caso das reformas tributária e administrativa, sem esquecer de socorrer a educação para recuperar os prejuízos à aprendizagem causados pelo fechamento das escolas.


03 DE MAIO DE 2021
CLÁUDIA LAITANO

Os 59 anos do Zoo de Sapucaia

O zoológico de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana, completou 59 anos no sábado. Depois de quase dois meses fechado, o parque reabriu ao público na sexta-feira.

Mesmo no feriado do Dia do Trabalho, o zoológico recebeu visitantes, com limitação de 500 carros por dia para evitar aglomerações. A pracinha e a área das churrasqueiras estão interditadas e não é permitido fazer churrasco em outros pontos. No momento, somente a realização de piqueniques está autorizada. É obrigatório o uso de máscara durante todo o passeio, que custa R$ 10 para pedestres e R$ 50 para automóveis. Pessoas a partir de 60 anos e estudantes com comprovante pagam R$ 5. Crianças têm entrada gratuita.

Na quinta e na sexta-feira, os ursos Sara e Coxa participaram de uma "festa", com bolo decorado com pedaços de frutas sobre uma estrutura de papelão. Um coração com bananas foi desenhado no chão. A alimentação desses animais é complementada com ração.

- Ficamos felizes de poder abrir novamente. Óbvio que temos a preocupação por causa da pandemia. Queremos que o zoo seja um lugar seguro para visitantes, funcionários e animais também, mas é muito bom poder voltar a possibilitar a conexão das pessoas com a natureza. Essa é uma das nossas funções como zoológico - afirma Caroline Weissheimer Costa Gomes, médica veterinária e gestora do parque.

O zoológico de Sapucaia do Sul, da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura, funciona de terça-feira a domingo, das 9h às 17h. Mais informações podem ser obtidas pelo WhatsApp (51) 98599-9627 ou no Facebook.

 LARISSA ROSO


03 DE MAIO DE 2021
INFORME ESPECIAL

A fórmula dos sonhos

A fórmula abaixo expressa o desejo mais secreto de um grupo de gestores públicos, protegidos por palavras bonitas, escorados em dados verdadeiros que apoiam teses furadas, mais preocupados com a próxima eleição e com a sua bolha do que com o todo. Se pudessem, aplicariam o seguinte parâmetro para definir os modelos de decisão durante a pandemia:

AB + PPE

NTP

AB - Aplauso da Bolha, traduzido na aprovação dos que estão mais perto e dos que fazem mais barulho nas redes sociais. No mundo analógico, pode ser substituído pelo índice TnC, Tapinha nas Costas.

PPE - Peso Político e Econômico de quem pressiona. Tem poder? Tem grana? Sou todo ouvidos...

NTP - Número total de pessoas atingidas pela decisão.

Pela lógica desse modelo, quanto maior o resultado, mais chance de sucesso de uma reivindicação. Se a gritaria e o aplauso da bolha são ensurdecedores e se a pressão vem de setores políticos e econômicos de peso, só se precisa encontrar um discurso e enfeitá-lo com números.

Sobre o número total de pessoas atingidas pela decisão, ele é fixo. Ou seja, tanto faz, rale-se, azar é o deles.

Alinhamento

Essas manifestações destrambelhadas pedindo a volta do regime militar nada tem de favorável às Forças Armadas.

Ao contrário.

Mesmo que a coesão interna seja sólida, é o tipo de assunto que só gera desconforto.

Jair Bolsonaro, mais cedo ou mais tarde, vai aprender que aumento de salário não compra dignidade, sentido patriótico e respeito à lei.

Bolor

Mais uma vez, as mudanças no secretariado de Eduardo Leite, que se elegeu com a promessa de fazer uma nova política, obedecem à lógica antiga de garantir a governabilidade antes de pensar no resto.

Espelho, espelho meu

Demitido há um mês, o ex-chanceler Ernesto Araújo abriu as baterias em uma rede social. Afirmou que o governo Bolsonaro perdeu a "alma e o ideal".

Traduzindo do ernestoaraujês: Perdeu Ernesto Araújo.

Nomes próprios

A disputa em torno do relator da CPI da Covid só confirma a sua natureza.

Quando uma investigação depende tanto de quem a comanda e tão menos dos fatos, o que está em jogo, antes mesmo de começar, é o resultado e não a retidão do caminho para chegar a ele.

Evolução

Não há, nas Forças Armadas brasileiras, qualquer ânimo para intervenções que não estejam previstas e amparadas pela Constituição.

As lições de 1964 foram aprendidas.

Na frente

Na capital de Pernambuco, a vacinação da primeira e a da segunda dose são agendadas e confirmadas através do aplicativo ou do site "Conecta Recife".

Manifestações 1

Jair Bolsonaro mostrou força eleitoral no final de semana. As pesquisas acertam quando apontam que ele, hoje, estaria no segundo turno em 2022.

Manifestações 2

De fato, quem não é apoiador de Jair Bolsonaro não faria manifestações com aglomeração em meio à pandemia. Mas isso não invalida a observação da nota anterior.

TULIO MILMAN

sábado, 1 de maio de 2021


01 DE MAIO DE 2021
LYA LUFT

E se a vida fosse diferente

E se a vida fosse diferente... seríamos melhores, mais alegrinhos, mais generosos, menos materialistas, menos invejosos, menos rancorosos, menos caluniadores, menos ignorantes e menos fingidos... isto é, menos infelizes?

Se a vida fosse diferente, acho que talvez, em parte, seríamos iguais. Talvez. Ou: como somos diferentes dependendo das diferenças de nossas famílias, educação, oportunidades, força de vontade, escolaridade, decência nas condições de vida... quem sabe seríamos melhorzinhos?

Os grandes milionários, desde os grandes imperadores, e, mais atrás, desde Átila, Gengis Khan e outros figurões poderosíssimos, que tinham à disposição toda a riqueza do mundo de então, seriam melhores do que seus cidadãos, ou servos, ou adversários?

Tenho grandes dúvidas. Acho, sim, que no fundo somos animais predadores com aquela casquinha de civilização, mais ou menos grossa, mais ou menos rachada, conforme as circunstâncias... mas também conforme nossa personalidade inata. Pois acredito que nascemos com uma bagagem psíquica que nos definirá basicamente para sempre, ainda que, de novo: família, educação, condições de vida, desejo de mudar e força de vontade tenham sua influência.

Sei de ótimas famílias que tiveram filhos drogados graves ou criminosos, tendo causando grande sofrimento a si próprios e aos que os amavam, conheço famílias humildes cujos filhos acabaram pessoas de bem em qualquer profissão, de pedreiro a senador.

Lógico: se vivo entre bandidos, mais fácil virar um deles. Mas onde está o Estado, que permite que a bandidagem tome conta de bairros inteiros, cidades inteiras, e que ninguém consiga respirar sem dobrar o pescoço a esses tiranetes modernos, cruéis e espertos, e mais ou menos protegidos?

Se a vida fosse diferente, talvez todos nós entendêssemos que ser feliz não é amar-se, curtir-se, ser atlético e magro e belo e rico, mas viver conforme um ser humano: generoso, cúmplice do bem, atento aos que precisam de um empurrãozinho para se arranjar na vida e ter emprego, pão para os filhos, algum lazer, e não ficar em infinitas filas para ganhar uma quentinha, uma garrafa de água, uma vacina que seja... filas de centenas de idosos para se protegerem da Peste, e chegando sua vez veem que não há vacina... e que se arranjem.

Não sei como a vida poderia ser diferente, mas com certeza o primeiro sonho de cada um não seria o vazio "ser feliz", mas ser bom, ser útil, ser generoso, ser parceiro, amar sua gente, sua família, amigos, alunos, professores, médicos, policiais, funcionários, vizinhos e até adversários políticos, sem fingimento mas sem rancor.

Se a vida fosse diferente, quem sabe: ao menos boa parte de nós, pobres humanos, seríamos um pouco diferentes: uma gota de otimismo, hoje, é preciso.

LYA LUFT